Carta do Mestre da Ordem Dominicana
Pe. Joseph Sergott, OP, Diretor – Set-Out 2018, Vol 71, No 5 – A Publication of the Western Dominican Province

EDIÇÃO ESPECIAL
Uma carta aos membros da Confraria do Rosário do Mestre da Ordem Dominicana
por Br. Bruno Cadoré, OP
[Em 5 de setembro de 2010, Pe. Bruno Cadoré, OP foi eleito Mestre da Ordem Dominicana, ou seja, da Ordem dos Pregadores. Ele é o 86º sucessor de São Domingos, que fundou a Ordem em 1216. Pe. Bruno nasceu em Le Creusot, França, em 1954. Entrou na Ordem em 1979, emitiu os votos em 1980 e foi ordenado sacerdote em 1986. Fr. Bruno, como prefere ser chamado, tornou-se médico antes de ingressar na Ordem, com especialização na área de bioética. Obteve o doutorado em teologia moral em 1992. Antes de sua eleição como Mestre da Ordem, atuou como Prior Provincial da Província Dominicana da França.]

A Igreja é uma comunidade. No coração da humanidade, há vinte séculos, é uma comunidade de homens e mulheres sustentados pelo amor de Deus por eles, manifestado por Cristo que os reúne como irmãos e irmãs. É uma comunidade fraterna, dada ao mundo como testemunha e guardiã da esperança do homem. São homens e mulheres – seguindo o Filho, o Verbo, que veio entre os homens – que descobrem o quanto este amor os transforma a ponto de lhes dar a graça de se tornarem irmãos. A Igreja é uma comunidade de irmãos e irmãs que são o sinal no mundo de que a sua diversidade está enraizada na unidade deste amor. Esse amor os torna filhas e filhos adotivos do Pai. Enraizados na vida de Cristo, levados por Ele ao coração do mundo ao experimentar as alegrias e tristezas da humanidade, sonhando com a vitória de Cristo sobre o mal que destrói e aliena a humanidade, alegres na esperança do Reino vindouro que é prometido. A Igreja é uma comunidade de irmãos e irmãs, de filhos e filhas. A Igreja é uma família – a família dos amigos de Deus.
Este é, creio eu, o mistério que Maria contempla desde que ouviu o anúncio do Anjo e guardou “todas essas palavras em seu coração”. Humilde jovem de Nazaré, Maria compreendeu intimamente que o Anjo vinha anunciar-lhe que ela havia sido escolhida para dar à luz no mundo Aquele que – desde antes de todos os tempos – devia ser enviado pelo Pai para realizar em a história da humanidade esta transfiguração da fraternidade. Certamente, uma e outra vez, ela ficaria chateada, preocupada, atônita e desamparada, quando, junto com José, viu seu filho Jesus crescer entre os homens. Sem dúvida, ela ficou surpresa com a maturidade de sua compreensão do mistério de Deus – uma compreensão que mesmo os estudiosos não conseguiam explicar. Talvez ela tenha sido tímida ao testemunhar seu surgimento como pregador quando, na Sinagoga, ele começou a proclamar o cumprimento de uma promessa que derrubou as falsas certezas do mundo. Assim, ele queria “tecer” a humanidade em uma roupa sem costura, daqueles que se acreditava perdidos, excluídos, negligenciados.
Provavelmente, seu coração ficou pesado quando percebeu quão total e inabalável era o amor de seu Filho em Deus Pai de misericórdia, criador do tempo e da história. Ela teve que aceitar que ele pertenceria a todos, tanto quanto a ela mesma. Certamente, ela foi tomada de horror quando começou a ver o desprezo, a hostilidade, a traição e a violência dirigidas a seu Filho por aqueles que queriam eliminá-lo porque ele questionava suas pretensões de poder sobre o povo, um poder que eles justificavam por um apelo a um deus que eles fizeram à sua própria imagem, de acordo com seus próprios desejos. Talvez ela preferisse que ele interrompesse sua missão de verdade e unidade antes de ser silenciado, quando sentiu que isso o levaria a enfrentar a humilhação, um julgamento e sentença desonestos e a morte. Mas, apesar de tudo isso, ela guardou no coração as palavras que lhe foram ditas. Além disso, ela guardava em seu coração a profunda convicção que sempre a animara de todo coração, de que o “Deus da promessa” era fiel e confiável, para sempre, e que a comunhão com Deus era o futuro da humanidade, porque sua origem estava nEle.
Meditando nestas palavras do anúncio, ouvindo as palavras de seu Filho, descobrindo como Jesus, proclamando a proximidade do Reino – mudou o mundo. Ela compreendeu – por aquela compreensão do coração muito mais profunda que a da razão – que o que lhe fora dado era a graça de dar à luz Aquele que é o Salvador do mundo. Este é Aquele que, ressuscitado dos mortos, enviou Maria Madalena e os discípulos “para dizer a seus irmãos” que ele abriria o caminho para eles irem ao Pai.
No meio do seu povo, entre os discípulos, Maria compreendeu que esta fraternidade era – numa história ao mesmo tempo bela e desordenada – o caminho para Ele, o sinal do cumprimento da promessa. Estas primícias do Reino foram semeadas na terra por sua vinda ao mundo, sua vida, sua provação, sua proclamação da verdade do Pai, seu confronto com o mal e o diabo, sua morte e ressurreição – por Aquele a quem ela recebeu de Deus como seu filho por meio de sua humanidade, a quem deu ao mundo como Salvador, o primogênito entre todos os irmãos e irmãs nele.
Ela compreendeu – ou melhor, acreditou, humildemente, misteriosamente – que era assim Mãe da Igreja, esta família de filhos e filhas adotivos, irmãos e irmãs do Filho único do Pai, esta família constituída, consolada e fortalecida pelo poder do Espírito que a acolheu à sombra de suas asas, esta humilde moça de Nazaré. Esta é a família no mundo que é o sacramento da salvação cuja promessa ela recebeu da boca do anjo.
É por isso que as Confrarias do Rosário são, no mistério do desdobramento da Igreja, uma graça oferecida para a evangelização. Esta é a graça de viver como irmãos e irmãs de Cristo, cuja meditação dos mistérios que formam o quadro de sua oração e a base de sua unidade, a graça de contribuir para o anúncio desses mistérios e a graça de receber desta oração a alegria de ser cada vez mais convertidos pela Palavra, de nos tornarmos “evangelizadores”.
Oitocentos anos atrás, o próprio São Domingos foi tomado por uma intuição muito parecida com esta confiança de Maria. Para ele, a Palavra da promessa tinha o rosto de Jesus, o pregador do Reino vindouro. A família de Jesus – aqueles que se tornaram seus irmãos e irmãs – tiveram que continuar esta pregação. E esta família encontraria força e alegria nesta evangelização, confiando-se à intercessão daquela que primeiro viveu – na sua carne, na sua vida e no seu coração – esta surpreendente aproximação de um Deus que se aproximou tanto dos homens , e tornou-se tão aberto, familiar e fraterno com eles, que um dia todos puderam sentir em si mesmos o desejo e a alegria de se aproximar de Deus.
À sua maneira, com seus limites, mas também com toda a variedade de seus dons e a força de sua fé, os irmãos e irmãs de uma Confraria do Rosário escolhem uma certa maneira de receber esta oração do Rosário, pegando na mão do aquele que, em Caná, disse aos servos, com autoridade de servo humilde: “Fazei tudo o que ele vos disser”.
Porque se deixou guiar por esta Mãe, Domingos sabia que para responder a este pedido precisava – como Maria – meditar na Palavra e no mistério da vida do Filho. Ele sabia – com coração compreensivo, isto é, com fé – que a verdadeira luz deste mistério se revelava com toda a claridade do alto da Cruz, daquele lugar onde os homens, corrompidos pela própria mentira, pensaram ter poderia pôr fim à Palavra que havia derrubado suas falsas alegações de autoridade. Mas este lugar foi também o lugar onde, das profundezas da terra e das suas trevas, se abriu o caminho para a luz do Pai: a Cruz, plantada na terra, que abriu os céus.
Assim, de fato, para proclamar este magnífico mistério de salvação, para continuar a “pregação do Filho” a quem a humilde serva havia dado à luz, Domingos sabia que podia – devia – contar com a intercessão daquele que deu à sua Ordem como “Mãe dos Pregadores”, Mãe de uma família onde as Confrarias do Rosário têm seu lugar.
As confrarias do Rosário devem viver desta mesma fé e partilhá-la, na Igreja, animadas pelo mesmo zelo apostólico que levou Domingos. Devem servir a Igreja, família dos irmãos e irmãs do Filho, que cresce anunciando a boa nova do Reino vindouro, meditando constantemente, na escola de Maria, os mistérios da vida daquele que é, definitivamente, o rosto e a verdade.
Ser Confraria do Rosário é ser pregador do Evangelho!
(Maio de 20, 2018) [Traduzido pelo Pe. Bryan Kromholtz, OP]
Teologia para os leigos: sobre os frutos do Santo Rosário
O que diria a Santíssima Virgem sobre
São Domingos?
pelo Pe. Tomás de Aquino Pickett, OP
O louvor da Bem-Aventurada Virgem Maria tende a exultar em suas virtudes relativas ao que os escolásticos classificam meticulosamente como os apetites concupiscíveis. Isso significa que comumente temos Maria como modelo das qualidades ligadas à virtude cardeal da temperança: a virtude que modera, guia e restringe nossa busca do prazer. No caso de Maria, as virtudes da castidade e da humildade aparecem em toda a sua glória.
No entanto, é muito raro pensar na Bem-Aventurada Virgem Maria como uma mestra dos apetites irascíveis. São os poderes da alma que nos ajudam a buscar bens difíceis de obter ou a evitar males difíceis de evitar. A principal virtude que orienta esse aspecto de nossas vidas é a fortaleza (vinda de “força” em latim). A fortaleza nos fortalece para ter ousadia na esperança e para evitar o desespero diante do medo. Temos poucos insights bíblicos sobre o estado emocional de Maria durante a fuga para o Egito, enquanto ela procurava o menino Jesus no Templo, como ela dava instruções durante as Bodas de Caná, quando ela estava ao pé da cruz, ou enquanto reunidos com os Apóstolos no cenáculo. Mas é duvidoso que uma pessoa sem a virtude da fortaleza, sem esperança e ousadia resoluta, sem domínio sobre o medo e o desespero, pudesse ter realizado o que Maria fez. Embora humildes, reconhecemos a força de Maria na Ladainha de Loretto como Virgo Potens, Virgem Poderosa.
O que Maria diria sobre São Domingos? Acho que ela veria nele uma alma gêmea. Ela reconheceria em São Domingos não apenas a temperança (a castidade de São Domingos é famosa), mas também veria um companheiro campeão da fortaleza. Tendo vivido um ano em Toulouse, França, onde São Domingos fundou a Ordem, fiquei impressionado com a ousadia de São Domingos. Imagine a dificuldade de tentar convencer um torcedor dos Yankees a apoiar o Red Sox; ou convencer alguém a mudar de partido político; ou incitar um vegano a comer um turducken. Estas são brincadeira de criança ao lado da dificuldade esmagadora, o perigo impressionante e os sacrifícios pessoais que São Domingos enfrentou ao tentar convencer os hereges cátaros a se tornarem católicos. E, no entanto, a ousadia em tentar realizar um bem difícil vem da virtude da fortaleza.
Se São Tomás de Aquino está certo de que “a semelhança é a causa do amor”, então penso que a Santíssima Virgem Maria veria São Domingos como um verdadeiro amigo. Não é de admirar, então, que tenhamos a piedosa tradição de que São Domingos recebeu o Rosário de Nossa Senhora. Nosso desafio, como devotos do Rosário, é imitar a fortaleza de Nossa Senhora e de São Domingos em viver vidas de esperança, dissipando as trevas do medo e do desespero pela luz da verdade.
Novembro – Mês das Santas Almas
Este número de “Luz e Vida” contém uma folha para listar os nomes de familiares e amigos falecidos que você gostaria que lembrássemos em nossas Missas em novembro, mês das Santas Almas. Nosso cronograma de impressão não nos permite enviar estas folhas comemorativas em novembro, por isso pedimos que as usem agora e as devolvam ao Rosary Center antes de 1º de novembro. A oração pelos mortos é uma tradição sagrada, e não podemos oferecer maior tributo ao nosso amor do que as orações pelo feliz repouso das almas daqueles que morreram. Para aqueles que visualizam isso on-line, a área da lista de almas está na parte inferior do Inscrição da Novena Disputas de Comerciais.
Uma Nota do Pe. José, OP
Após décadas de uso constante, o Centro do Rosário precisa muito de uma reforma. Por favor, considere fazer um presente especial para ajudar a fazer reparos extremamente necessários e reformar os escritórios, capela e cozinha. Obrigado pela sua generosidade!