Homens e Anjos O LIVRE ARBÍTRIO: UM PRESENTE E SUAS CONSEQUÊNCIAS, I

O Rosary Light & Life – Vol 66, No 4, julho-agosto. 2013
Homens e anjos
LIVRE ARBÍTRIO: UM PRESENTE E SUAS CONSEQUÊNCIAS, I
Por Padre Reginald Martin, OP

FELICIDADE VERDADEIRA

Nossa fé nos apresenta vários padrões morais, alguns para imitar e outros para evitar. Os anjos são representações esplêndidas desses padrões, e a criança sábia não terá dificuldade em discernir qual exemplo abraçar. Nossa fé apresenta os anjos “bons” como nossos modelos de obediência, pois eles ilustram o princípio de que nossa felicidade está em tomar as decisões corretas e nos render ao plano de Deus. Nosso Catecismo nos lembra,

A bem-aventurança que nos é prometida nos confronta com escolhas morais decisivas... Ensina-nos que a verdadeira felicidade não se encontra na riqueza ou no bem-estar, na fama ou poder humano ou em qualquer realização humana... ou mesmo em qualquer criatura, mas somente em Deus, fonte de todo bem e de todo amor... (CCC, nº 1723)

O EXEMPLO DE ORAÇÃO

Quando desejamos algo, não apenas desejamos o que desejamos, mas o que nos permite alcançar nosso objetivo. Deus deseja que sejamos salvos, então Ele nos dá os mandamentos pelos quais alcançamos nossa salvação. Quando oramos para fazer a vontade de Deus, pedimos para compartilhar a vida dos santos; isso é muito claro. O que podemos ignorar – ou deixar de considerar – é que orar por uma meta é orar por todos os passos necessários para alcançá-la. Para ver um exemplo disso, precisamos apenas considerar as palavras do Pai Nosso.

São Tomás de Aquino nos lembra que não pedimos a Deus: “Faça sua vontade na terra”, nem dizemos: “Façamos a vontade de Deus”. A primeira parece nos deixar fora da equação; a segunda é ignorar a contribuição de Deus para nossa salvação. Santo Agostinho ensinou, “Aquele que te criou sem ti mesmo não te justificará sem ti mesmo.” Por isso, quando dizemos “faça-se a tua vontade”, reconhecemos que a nossa salvação é um projeto em que vamos cooperar com Deus, pedindo a Deus a graça de que necessitamos para alcançar o pleno potencial humano de nossas ações.

São João Crisóstomo fez o mesmo, em uma de suas homilias sobre o evangelho de São Mateus. Ele pergunta, “Veja como Ele também nos ensinou a ser modestos, deixando claro que a virtude não é apenas de nossos esforços, mas também da graça do alto?”

Falar, como fazemos, do céu e da terra quando rezamos o Pai Nosso, refere-se não tanto aos lugares, mas aos indivíduos que os habitam. Pedimos a Deus para nos recrutar e trabalhar conosco na busca da perfeição, para que nós, cidadãos pecadores da terra, possamos abraçar a vontade de Deus tão completamente quanto os justos. Esta reconciliação dos reinos do céu e da terra torna-se um sinal da busca de Deus para restaurar a raça humana à dignidade e harmonia que desfrutava antes de nossos Primeiros Pais pecarem.

ESCOLHA: O CAMINHO PARA A FELICIDADE

Porque tudo flui da vontade de Deus, tudo, à sua maneira, vem e é atraído para o bem. As plantas são atraídas pela luz naturalmente, sem nenhum conhecimento do que fazem. Cães e gatos podem não ser capazes de refletir sobre o que estão fazendo, mas farão escolhas entre os alimentos porque entendem, por meio de seus sentidos, que algumas coisas têm um sabor melhor do que outras. Outros seres superiores escolhem entre as opções porque percebem e reconhecem algum aspecto superior da bondade que lhes permite fazer escolhas entre várias opções. Essa capacidade é o intelecto. Vemos o intelecto em ação, por exemplo, quando dizemos: “Este livro é melhor do que aquele”. Os seres capazes de fazer julgamentos discretos também podem apreender o bem em geral. Dizemos que a luz é melhor que a escuridão, o calor é melhor que o frio e a vida melhor que a morte. Somos naturalmente atraídos pelo que há de bom nessas realidades e chamamos a capacidade de apreciar esses valores universais de vontade.

A CAPACIDADE DE ESCOLHER

Quando nos referimos a seres “superiores”, descrevemos apenas dois: anjos e humanos. O que nos diferencia e aos anjos do resto da criação é nossa capacidade de perceber o bem com nosso intelecto e abraçá-lo com nossa vontade. Nós, humanos, aprendemos a fazer esses julgamentos por meio de um processo de percepções sensoriais que nos permitem – isso não demora muito – chegar a conclusões universais. Os anjos não têm corpos, por isso dependem do conhecimento direto e imediato que recebem de Deus.

ESCOLHA INTELECTUAL

Em Deus, o intelecto e a vontade são identificados, pois Deus não quer nada além de Si mesmo, porque ele é a própria bondade. Obviamente, não é assim que a escolha funciona com os anjos – ou conosco. O intelecto e o intelecto humano buscarão a união com as coisas boas que apreendemos no mundo ao nosso redor. Conhecemos algo na medida em que o conhecido se torna parte de nós. Mas alcançamos esse conhecimento de maneiras diferentes. Nosso intelecto procura captar o que está fora dele e torná-lo parte de nós. Podemos pensar que isso é termos de alguns alimentos que gostamos particularmente – ou o livro acima mencionado. Quando gostamos particularmente de um ou outro, dizemos que o “devoramos”.

A ESCOLHA DA VONTADE

São Tomás de Aquino ensina que nossa vontade, ao contrário, “estende-se ao que está além de si e procura unir-se ao objeto externo”. (ST I. 52.2) Quando nos apaixonamos, por exemplo, nos atiramos totalmente contra a outra pessoa; dizemos que nos “perdemos”.

Para os anjos e para nós, o livre-arbítrio é uma característica essencial de nossa dignidade. Ao contrário dos animais, que agem a partir de julgamentos naturais implantados pela natureza, agimos porque nosso intelecto nos permite escolher livremente entre as coisas boas. Nossa teologia ensina que onde quer que haja intelecto, há livre arbítrio. Porque a perfeição intelectual dos anjos supera a nossa, devemos concluir que eles, como nós, possuem – e em maior grau – livre arbítrio. (ST I. 52. 3)

Como a nossa, a vontade dos anjos é dirigida às coisas de acordo com sua natureza. Para alcançar acima dessa natureza – por exemplo, buscar a vida com Deus – tanto nós quanto os anjos devemos ser apoiados pela graça, que nos permite olhar, ver e alcançar acima de nossa natureza.

A diferença é que temos nossa recompensa para esperar no futuro, no céu; os anjos, que vêem Deus face a face, já a possuem. Com certeza, as Escrituras dizem “Haverá alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que faz penitência”, (Lc 15.10) mas São Tomás de Aquino observa que esta é uma alegria extra, marginal, e um pouco menor, adicionada à bem-aventurança que os anjos já desfrutam no reino de Deus. (ST I. 62.9)

A GRAVIDADE DA ESCOLHA

No Jardim, o espírito de Adão estava, inicialmente, totalmente sujeito a Deus, com o resultado de que nosso primeiro ancestral não experimentou nenhum conflito entre seu corpo e seu espírito. A carne humana estava tão (felizmente) sujeita à alma humana que não era movida pela paixão. Nem o corpo estava sujeito à doença ou à morte. O pecado, como sabemos, derrubou essa harmonia.

Para a alma se voltar contra Deus foi uma catástrofe; assim como as consequências, que nossos Primeiros Pais não viram imediatamente. Uma vez que a alma deixou de ser uma força mediadora entre Deus e o corpo humano, a carne humana voltou-se contra a alma. O resultado foi a morte, a enfermidade e a luta permanente entre a alma e os sentidos que é um fato comum – e triste – da nossa experiência humana. São Paulo resume eloquentemente o caso quando escreve: “Eu vejo outra lei em meus membros, guerreando contra a lei da minha mente” (Rm 7:23) e “a carne cobiça contra o espírito e o espírito contra a carne” (Gl 5:17).

Santo Agostinho ecoou São Paulo (e antecipou São Tomás de Aquino) quando escreveu

…está totalmente de acordo com nossa fé e esperança, que devemos tomar o céu e a terra no sentido de espírito e carne… que a vontade de Deus seja feita na terra. como é no céu; isto é, de tal maneira que... como o espírito não resiste a Deus, mas segue e faz a Sua vontade, assim também o corpo não pode resistir à... hábito carnal.

CRIAÇÃO DOS ANJOS

As Escrituras não mencionam a criação dos anjos, e os primeiros Padres da Igreja estão divididos em suas opiniões sobre quando Deus os criou. São Gregório Nazianzeno (329-390) ensinou que os anjos foram os primeiros atos da criação de Deus. Gregório é o único dos Padres que ninguém jamais contradisse, então isso dá um certo peso à sua opinião, mas Tomás de Aquino sugere educadamente uma hipótese alternativa – que os anjos foram criados ao mesmo tempo que as outras criaturas. A razão, ele argumenta, é que os anjos são uma parte da criação, e nenhuma parte de um todo é perfeita se estiver sozinha.

QUAIS ANJOS PECAM?

Se perguntarmos qual dos anjos pecou, ​​São Tomás de Aquino responde que a caridade é incompatível com o pecado porque seu fogo de amor só pode conduzir a Deus. O conhecimento, por outro lado, é capaz de levar os indivíduos a qualquer número de loucuras. (ST, I. 63. 7. ad 1) Portanto, conclui ele, os anjos que pecaram eram Querubins, anjos do intelecto. Além disso, acrescenta, o anjo mais elevado que pecou foi o anjo mais elevado de todos. A razão para isso é a conexão entre orgulho e excelência. São Tomás baseia sua conclusão na lógica dos primeiros Padres da Igreja, que argumentavam que o mais esplêndido dos anjos não poderia se contentar com o segundo lugar. (ST I. 63. 7)

A ESCOLHA DOS ANJOS: ORGULHO

Santo Agostinho ensina que o orgulho é único entre os pecados porque todos os outros pecados têm prazer em fazer algo errado. Em contraste, diz ele, orgulho é ter um prazer excessivo em fazer algo bom. Os anjos não têm corpos, então vários pecados não estão ao seu alcance, mas dois deles estão – orgulho e inveja. Orgulho porque é a escolha de não se submeter a um superior quando a submissão é devida, e inveja porque se entristece com a boa sorte alheia, que vê como uma barreira à sua. Tomás de Aquino ensina que o pecado do Diabo foi, inquestionavelmente, procurar ser como Deus. Não em igualdade, o que ele teria percebido imediatamente que era impossível. Mas ele procurou ser como Deus em autossuficiência. Ele não queria estar sujeito a ninguém e queria dominar os outros.

Aqui devemos notar que o Orgulho é um pecado do Intelecto. Assim também é o seu remédio, a humildade. A humildade não tem nada a ver com uma auto-imagem pobre; é reconhecer Deus como a fonte de tudo o que temos e tudo o que somos. E este pode ser um bom lugar para observar que os pecados mais aptos a nos condenar são precisamente os pecados intelectuais – e parte do motivo é simplesmente porque temos que trabalhar muito para eles. Podemos facilmente comer demais ou falhar na castidade; orgulho e inveja requerem verdadeiro cultivo.

UMA ESCOLHA FATAL

Papa São Gregório Magno (540-604) chama os anjos “os espíritos santos de nossa pátria no céu”. Poderíamos razoavelmente perguntar como alguns deles, pelo menos, espíritos que gozavam tanto, poderiam ter sacrificado tal felicidade? Tomás de Aquino responde que o pecado é um desvio deliberado da retidão ou retidão que um ato deve ter, e porque todas as criaturas racionais têm livre arbítrio, qualquer criatura racional, a menos que protegida por uma graça especial, pode pecar.

AS CONSEQUÊNCIAS ETERNAS

Os demônios estão arrependidos de seus pecados? A resposta a esta pergunta é sim e não. Lamentar o pecado é um sinal da bondade da vontade. Uma vez que Deus tenha feito o julgamento final, é tarde demais para a vontade expressar remorso pelo pecado. Por outro lado, os demônios certamente lamentam o castigo que são obrigados a suportar, pois toda vontade naturalmente deseja a felicidade, e a própria noção de punição é repugnante à vontade. Os demônios também invejam a boa sorte daqueles que não sofrem como eles. Assim, eles podem lamentar seu castigo, mas não podem expressar tristeza pelo pecado que o mereceu, pois tal tristeza não daria frutos.

INFERNO: UMA DIVISÃO ETERNA

E parte da punição dos demônios é a consciência de que eles estão eternamente presos à sua escolha. Não se trata apenas de uma reflexão especulativa. Tomás de Aquino ensina que a vontade é uma operação dupla, natural e deliberada. A vontade natural é um dom de Deus para nós e, portanto, deve ser boa e buscar o bem. A vontade deliberada é o que fazemos com este dom. Para um indivíduo voltar sua vontade para o pecado e se encontrar no inferno é bastante triste. Mas uma vez lá, a vontade natural lembra eternamente ao indivíduo que ele não pertence ali.

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