Sobre os frutos do Santo Rosário
Luz e Vida - Set-Out 2018, Vol 71, No 5 - Uma Publicação da Província Dominicana Ocidental

Quando rezamos o Santo Rosário, aquela oração dada a São Domingos pela Bem-Aventurada Virgem Maria e transmitida a nós através dos tempos, entramos nos mistérios da Vida de Jesus Cristo e sua Mãe. Às vezes, somos muito claros em nossas intenções, esperanças e desejos enquanto rezamos o Rosário e suplicamos ao Senhor com nossas petições. Já consideramos que há outros frutos além das respostas às nossas petições que podem nascer da oração do Rosário, fruto que o próprio Jesus e sua Mãe querem que produzamos?

Como irmãos e irmãs da Confraria do Rosário, estamos familiarizados com a frase “Bendito é o fruto do teu ventre, Jesus”, essa articulação essencial, como se refere o Papa São João Paulo II, que une os dois partes da Ave Maria. O Senhor Jesus é esse fruto abençoado que nos é dado em abundância. Faz sentido, então, quando perguntamos: “Qual é o maior fruto do Santo Rosário?” que o Papa João Paulo diz: “Os ciclos de meditação propostos pelo Santo Rosário trazem à mente o que é essencial e despertam na alma uma sede de conhecimento de Cristo...” (Rosário Virginis Mariae (RVM) #24). Ele recorda a sabedoria de São Paulo, que diz: “Cristo é o perfeito conhecimento do mistério de Deus, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cf. Col 2-2).
São João Paulo II fala de assimilando os mistérios do Santo Rosário (RVM #26). Isto ocorre meditando a vida de Jesus em cada mistério, contemplando o seu significado na nossa vida ou na vida da Igreja, crescendo na compreensão destes acontecimentos-chave da sua vida na terra, esforçando-nos por conformar cada vez mais a nossa vida dele tentando imitar suas ações, e desposando seu amor cada vez mais profundamente em nossa vida diária. Quando mergulhamos nos mistérios do Santo Rosário, com a ajuda da Santíssima Virgem e por meio da contemplação, entramos mais profundamente na vida de Jesus.
Você pode protestar: “Isso é muito difícil de fazer!” No entanto, quando nós orar o rosário todo dia por um período de semanas, meses e anos, se estivermos atentos e pedirmos para receber as graças desta oração – e NÃO estivermos correndo para ver quantos rosários podemos “rezar” (ao contrário de orar) em um dia - não podemos deixar de receber os frutos de nossos esforços. Como diz São João Paulo II, “Maria expõe constantemente aos fiéis os 'mistérios' de seu Filho, com o desejo de que a contemplação desses mistérios libere todo o seu poder salvífico” (RVM #11).
Assim, o “Segredo do Rosário” é que conduz facilmente a um conhecimento profundo e interior de Cristo. Nosso Papa Mariano chama isso de caminho de Maria porque “é o caminho do exemplo da Virgem de Nazaré, mulher de fé, de silêncio, de escuta atenta. É também o caminho de uma devoção mariana inspirada no conhecimento do vínculo inseparável entre Cristo e sua Mãe Santíssima: o mistérios de Cristo também são, em certo sentido, os mistérios de sua mãe, mesmo quando não a envolvam diretamente, pois ela vive dele e por meio dele” (Cf. RVM nº 24).
Como exemplo de assimilação de um dos mistérios do Santo Rosário, quando meditamos, por exemplo, o Primeiro Mistério Doloroso, a agonia de Nosso Senhor no jardim, poderíamos começar pedindo a Deus o dom da confiança nele, um dos “frutos” ligados a este mistério. Então, poderíamos entrar mais profundamente neste mistério refletindo sobre a pergunta: “O que Jesus estava sofrendo ao cair de joelhos no jardim?” Ou: “O que ele sentindo-me ao sentir o peso dos pecados do mundo, sabendo que logo os levaria sobre os ombros?”
No jardim do Getsêmani, a agonia de Jesus já começou. Por ser humano como nós, ele experimenta as emoções pelas quais passamos, por exemplo, como é ser rejeitado pelos outros (embora no caso dele tenha sido rejeitado pelo mundo inteiro!), a ansiedade de assumir ele mesmo os pecados do mundo, e o pior de tudo, o medo da morte. E embora ele não seja maculado pelo pecado por causa de sua natureza divina, ele sente os efeitos deletérios do pecado. Lembre-se de sua luta — pedindo ao Pai que “tome este cálice de mim” e depois diga logo depois: “Mas não a minha vontade, mas a tua vontade”. (Lucas 22:42 e Mateus 26:39)
Qual é o significado deste mistério? – Captura a agonia de Jesus quando ele estava prestes a morrer por nós, para nos redimir, para nos libertar da morte e da escravidão do pecado. Fala de seu grande amor por toda a humanidade. Assim, quando medito sobre este mistério, talvez meus próprios pecados presentes estejam diante de mim - é então que posso encontrar esperança e paz, sabendo que ele contemplou minha pecaminosidade e o que seria necessário para me redimir, e escolheu dar sua vida para mim porque ele me ama. Talvez eu mesmo possa entrar no jardim do Getsêmani e me imaginar ajoelhado ao lado de Jesus e consolá-lo - ou, adormeci ao lado dele, ou até mesmo fugi? São João Paulo II diz: “Os mistérios dolorosos ajudam o crente a reviver a morte de Jesus para entrar com [Maria] nas profundezas do amor de Deus pelo homem e experimentar todo o seu poder vivificante”. (RVM #22)
Talvez durante minha meditação sobre esse mistério em particular, eu possa refletir sobre como posso seguir em frente um dia de cada vez, tentando seguir o exemplo de Jesus de me sacrificar pelo bem dos outros, esforçando-me para impactar suas vidas de maneira positiva. Como eu poderia aliviar os fardos daqueles que estão ao meu redor? Como eu poderia dar-lhes esperança ou paz? Afinal, Jesus diz: “Quem está em mim, e eu nele, dá muito fruto. Fui eu que vos escolhi para irdes e dar muito fruto. (Cf. João 15)
Então, eu poderia terminar minha meditação sobre este mistério oferecendo uma breve oração a Jesus, agradecendo-lhe por ter dado sua vida por mim, pedindo-lhe que me amasse e me mostrasse como amá-lo e aos outros.
Em relação a mais um fruto que pudemos obter através do Rosário, Pe. Bruno Cadoré, OP, Mestre da Ordem Dominicana, fala nesta edição do Luz e vida de como os membros das Confrarias do Rosário devem viver a nossa fé em Jesus Cristo e partilhá-la na Igreja e no mercado, animados pelo mesmo zelo apostólico que levou São Domingos. Br. Bruno, como prefere ser chamado, diz: “no mistério do desdobramento da Igreja, [os membros das Confrarias do Rosário são] uma graça oferecida para a evangelização”, ou seja, devemos viver como irmãos e irmãs de Cristo, cuja meditação sobre os mistérios do Rosário formam o quadro da nossa oração e a base da nossa unidade. Além disso, devemos contribuir para o anúncio desses mistérios e receber deles a alegria de sermos cada vez mais convertidos pela Palavra e nos tornarmos “evangelizadores”.
Em resumo, quando mergulhamos em nosso Rosário diário, colhemos a abundância de seus frutos. Ao rezarmos esta oração secular que nos foi dada pela própria Virgem, unida a inúmeras famílias, amigos e confrarias do Rosário, entramos nos mistérios da vida de Jesus, crescendo em nosso conhecimento e compreensão dele e conformando nossas vidas em direção ao dele. Ganhamos força para resistir à tentação e ao mal, encontramos a paz interior, somos inspirados a amar o próximo e somos compelidos a nos tornarmos evangelizadores da Palavra viva, que é Jesus. E o mais importante, a Santíssima Virgem nos leva mais fundo no amor de Jesus – talvez esse seja o maior fruto que ela quer que obtenhamos.
Muitos de nós concluímos o Rosário com esta oração, suplicando a Deus que nos abençoe com os frutos que se obtêm meditando nos seus mistérios (Cf. RVM nº 35):
Rezemos. Ó Deus, cujo Filho Unigênito, por sua vida, morte e ressurreição, adquiriu para nós as recompensas da vida eterna: concedei, nós Vos suplicamos, que meditando sobre estes mistérios do Santíssimo Rosário da Bem-Aventurada Virgem Maria, podemos imitar o que eles contêm e obter o que prometem, pelo mesmo Cristo nosso Senhor. Um homem.
Estes são os frutos dos mistérios do Rosário que peço ao Senhor quando rezo o Rosário:
Mistérios alegres:
- Anunciação: humildade;
- Visitação: amor ao próximo;
- Nascimento de Jesus: desapego;
- Apresentação: obediência;
- Encontrar no Templo: maior compromisso e devoção a Jesus.
Mistérios Luminosos:
- Batismo: abertura ao Espírito Santo;
- Milagre em Caná: intercessão de Maria;
- Proclamação do Reino e Arrependimento: testemunho cristão e conversão;
- Transfiguração: coragem para carregar a cruz;
- Instituição da Sagrada Eucaristia: maior amor pela Sagrada Eucaristia.
Mistérios dolorosos:
- Agonia no Jardim: confiança em Deus;
- Flagelação no Pilar: pureza;
- Coroação de Espinhos: fortaleza;
- Carregar a Cruz: perseverança nas provações;
- Crucificação: perdão para os outros.
Mistérios Gloriosos:
- Ressurreição: fé;
- Ascensão: esperança;
- Descida do Espírito Santo: dons do Espírito Santo;
- Assunção: A Jesus por Maria;
- Coroação: perseverança final.