Os 10 Mandamentos – O 1º: “Eu sou o Senhor teu Deus… Não terás outros deuses diante de mim”.
The Rosary Light & Life – Vol 67, No 1, Jan-Fev 2014
Os Dez Mandamentos, II
O Primeiro Mandamento: “Eu sou o Senhor teu Deus
… Não terás outros deuses diante de mim”.
Por Padre Reginald Martin, OP
Quando Deus falou com Moisés no Monte Sinai, Ele começou a conversa lembrando-o dos feitos poderosos que Ele havia feito pelos israelitas no Egito. O Primeiro Mandamento é um chamado ao Povo Escolhido para que se lembre de sua libertação da escravidão e – em justiça – para se oferecer Àquele que os libertou. “O primeiro chamado de Deus e a justa demanda”, A Nossa Catecismo Nos lembra, “é esse homem aceitá-lo e adorá-lo” (CIC, 2084).
Em nossa reflexão anterior falamos da Aliança de Deus, que é uma união exclusiva e obrigatória entre Deus e Seu povo. “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra; não se curvará a eles nem os servirá”. (Deuteronômio 6:4) O Êxodo marca um novo começo, e Deus quer que Seu povo não cometa erros: eles vieram para uma nova terra e estão vivendo de acordo com um novo conjunto de regras.
UM LEMBRETE NO AMOR
No centro dessas regras está o amor de Deus por nós. Nossa teologia ensina que a misericórdia é a compaixão pela angústia do outro, juntamente com a vontade de aliviá-la. O Antigo Testamento não contém nenhum exemplo de misericórdia maior do que Deus levando Seu povo da escravidão – o que explica por que o Êxodo e suas águas são um símbolo tão poderoso para o nosso Batismo e a libertação que Cristo conquistou para nós por Sua cruz. Nosso Catecismo nos pede para refletir sobre isso, e pede,
Quem não poderia colocar toda a esperança nele? Quem não poderia amá-lo ao contemplar os tesouros de bondade e amor que derramou sobre nós? (CIC, 2086)
UMA RESPOSTA NA FÉ
O primeiro mandamento exige uma resposta a Deus com fé, esperança e amor. Nosso Catecismo nos lembra que São Paulo chama isso de “obediência da fé” nossa primeira obrigação para com Deus, e nos diz que “ignorância de Deus” está no cerne de todos os males morais que vemos ao nosso redor (Rm 1:5, 1:16, 1:18). “Nosso dever para com Deus é acreditar nele e dar testemunho dele.” (CIC, 2087)
A crença em um Deus que não pode ser visto não é mais fácil para nós do que foi para os israelitas no deserto. No entanto, ao contrário de nossos ancestrais, temos as vantagens inestimáveis não apenas da Encarnação, mas também do dom permanente de Cristo do ofício de ensino da Igreja (Magistério), que ajuda quando a crença é difícil.
O Magistério dos Pastores da Igreja em matéria moral exerce-se ordinariamente na catequese e na pregação, com a ajuda das obras de teólogos e autores espirituais. Assim, de geração em geração... foi transmitido o “depósito” do ensinamento moral cristão, um depósito composto por um corpo característico de regras procedentes da fé em Cristo e animado pela caridade. (CIC, 2033)
DÚVIDA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Que pecamos contra nossa fé quando rejeitamos o que Deus revelou e a Igreja apresenta para nossa crença deveria ser óbvio. Pecados mais sutis contra a fé são dúvidas que alimentamos, ou o fracasso em buscar soluções para questões que podemos ter sobre questões desconcertantes. “Se deliberadamente cultivado”, da Catecismo avisa, “a dúvida pode levar à cegueira espiritual” (CIC, 2088).
Os pecados muito mais graves contra a fé – mais graves porque podem levar outros ao erro – são heresia, que é a negação ou dúvida de um cristão batizado de alguma verdade revelada que deve ser crida; apostasia, o afastamento da fé; e cisma, que se recusa a submeter-se ao Santo Padre ou a identificar-se como membro daqueles que lhe são fiéis.
Em uma reflexão anterior, consideramos o dom do Espírito Santo de Temor do Senhor. Concluímos que o medo “verdadeiro” não nos leva à virtude porque tememos o castigo de Deus, mas porque não desejamos ofender um pai amoroso. Este estado de “temor amoroso” está intimamente ligado à Virtude da Esperança, que nosso Catecismo define como “… a expectativa confiante da bênção divina e a visão beatífica de Deus; é também o medo de ofender o amor de Deus…” (CIC, 2090).
A RESPOSTA DA ESPERANÇA
A virtude é sempre o meio-termo entre os extremos. A virtude da esperança escolhe o caminho pelo qual acreditamos que Deus fornecerá toda a assistência que precisarmos para alcançar nosso objetivo de vida eterna. Em oposição a essa confiança (e nosso compromisso de cooperar com a graça de Deus em nosso favor) estão duas falhas. O primeiro é presunção, pelo qual um indivíduo imagina que seus próprios esforços podem ser suficientes para alcançar a salvação sem a ajuda divina, ou que Deus realizará nossa salvação sem nenhum esforço de nossa parte.
O segundo pecado contra a esperança é desespero em que uma pessoa se recusa a acreditar que Deus perdoará nossos pecados ou fornecerá ajuda para alcançarmos a felicidade eterna. “O desespero é contrário à bondade de Deus, à sua justiça – pois o Senhor é fiel às suas promessas – e à sua misericórdia.” (CIC, 2091) A tragédia do desespero é sua recusa em aceitar a vontade de Deus de agir em nosso favor da maneira que nossa fé nos assegura que Deus está mais disposto a vir em nosso auxílio.
A RESPOSTA DO AMOR
O Primeiro Mandamento é também um chamado ao amor. Em sua primeira carta, São João escreve:
Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para ser a expiação dos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, devemos amar uns aos outros. (1 Jo 4.10)
O amor de Deus é a fonte do nosso amor. Ela nos capacita a amar a Deus e então nos capacita a amar a criação de Deus como Deus a ama. Isso começa com o nosso amor a nós mesmos e depois se espalha para abraçar aqueles a quem estamos mais intimamente ligados e, eventualmente, o resto da humanidade.
A fé no amor de Deus engloba o chamado e a obrigação de responder com amor sincero à caridade divina. O primeiro mandamento nos ordena a amar a Deus acima de tudo e a amar todas as criaturas por ele e por causa dele. (CIC, 2093)
FALTA DE AMOR
Nós pecamos contra o amor de Deus através indiferença, que é nossa recusa em refletir sobre o amor de Deus, ou uma negação de seu poder; e através ingratidão, que é a nossa recusa em reconhecer o amor de Deus e retribuí-lo. Quando considera a ingratidão, São Tomás de Aquino observa que podemos pecar desviando-nos da virtude de duas maneiras: excesso e defeito, isto é, fazendo muito ou pouco.
Podemos imaginar um excesso de gratidão impossível, mas São Tomás escreve que excedemos a virtude se agradecemos por coisas que não temos necessidade de agradecer, ou se agradecemos na hora errada. Pior, porém, é o defeito da gratidão pelos dons com que Deus nos abençoou. São Tomás escreve, “Mas ainda mais oposto à gratidão é o vício que denota deficiência…” (ST II-II, 107.2). Cada um de nós provavelmente se lembra do lembrete severo de um pai para enviar um agradecimento imediato por presentes de aniversário ou Natal. Isso deve nos lembrar de nossa responsabilidade muito maior de agradecer, com nossas palavras e vidas, pelo que Deus nos dá a cada dia.
Outros pecados contra o amor de Deus incluem mornidão e acedia. Ambos envolvem uma lentidão para reconhecer ou responder ao amor de Deus. Eles são o equivalente espiritual da preguiça, que muitas vezes assumimos ser mera procrastinação. Isso, no entanto, é apenas um sintoma de preguiça. A verdadeira preguiça é mover-se lentamente quando devemos agir com pressa; respondendo friamente quando deveríamos responder com calor.
A RESPOSTA NO AMOR
Mas como manifestamos nossa amorosa obediência a Deus, e assim cumprimos o mandamento, “Só a ele servireis”? Quando estudamos a virtude da justiça aprendemos que ela nos dispõe a dar a cada um o que lhe é devido. Podemos não pensar imediatamente em Deus quando consideramos a virtude da justiça, mas o Primeiro Mandamento nos lembra dos direitos de Deus – e nossas obrigações para com Ele.
A RELIGIÃO E SEUS ATOS: ADORAÇÃO
Agir por um mero senso de dever pode ser um empreendimento maçante e estéril. Nosso amor a Deus dá alegria ao nosso serviço e, como nosso Catecismo Nos lembra, “… leva-nos a dar a Deus o que lhe devemos…” (CCC, 2095). Nossa teologia chama essa disposição de virtude da religião. O primeiro dos atos desta virtude é a adoração, pela qual identificamos humildemente Deus como a fonte de tudo o que temos e de tudo o que somos. “Adorar a Deus é reconhecer, com respeito e submissão absoluta, o 'nada da criatura', que não existiria se não fosse por Deus.” (CIC, 2097)
ORAÇÃO
Jesus diz a seus discípulos que eles devem orar sempre e não desanimar (Lc 18:1). Isso nos lembra que a oração é um elemento essencial em nossa vida com Deus e uma expressão de nossa adoração. A oração é uma parte tão importante da nossa vida espiritual que não podemos obedecer aos mandamentos de Deus sem ela.
SACRIFÍCIO
Muitas vezes pensamos em um sacrifício como uma vontade de passar sem algo. A palavra na verdade significa “tornar santo”. Nós fazemos algo sagrado oferecendo-o a Deus, como o padre faz o pão e o vinho na Missa. Fazemos um sacrifício, fazendo uma oferta aos pobres, dando uma mão a alguém em necessidade, ou deixando uma refeição durante a Quaresma – sempre que damos expressão externa ao nosso amor interior a Deus. Nosso Catecismo observa, “Este é … um sinal de adoração, súplica e comunhão” (CIC, 2099).
O texto continua, “O sacrifício exterior, para ser genuíno, deve ser a expressão do sacrifício espiritual” (CCC, 2100). Somente quando a expressão exterior reflete o interior, ela começa a imitar o único e perfeito sacrifício, o sacrifício de Cristo na cruz. Quando unimos nossos sacrifícios aos de Cristo, nossas ações começam a atingir a perfeição dEle, e nos aproximamos do cumprimento prometido pelo Primeiro Mandamento.
PROMESSAS E VOTOS
Da igreja Código de Direito Canônico define um voto como “uma promessa deliberada e livre feita a Deus a respeito de um bem possível e melhor que deve ser cumprido...” (CIC, 1191.1). Embora não tenhamos pensado muito no assunto, a maioria de nós já fez vários votos quando chegamos à idade adulta. A primeira são as promessas que fazemos no Batismo, quando prometemos renunciar a Satanás e suas obras. Fazemos outros votos quando somos confirmados e prometemos viver como cristãos adultos.
Os casais que se casam estão familiarizados com seus votos de amar e honrar seus parceiros até a morte, e os diáconos e padres não têm dúvida de que prometem obediência a Deus e aos bispos a quem servirão lealmente.
Aqueles que entram nas comunidades religiosas, ou que se comprometem com uma regra de vida de votos enquanto vivem “no mundo”, descobrem outras maneiras de oferecer a Deus um sacrifício agradável, e as promessas que fazem são mais uma maneira de santificar os “dias de nossa vida”. vidas."
NÃO TERÁS OUTROS DEUSES ANTES DE MIM – SUPERSTIÇÃO E IRELIGIÃO
Anteriormente nesta reflexão consideramos a possibilidade de pecar por excesso e defeito. Ao aproximarmos esta reflexão, devemos considerar, brevemente, superstição, que o Catecismo chama “um excesso perverso” de entusiasmo religioso e irreligião, que é um defeito nos bons atos que acabamos de estudar. Este último é provavelmente bastante fácil de identificar e entender. Vemos isso quando duvidamos da providência de Deus. Também é evidente quando os indivíduos maltratam objetos sagrados, ou exigem pagamento por alguma coisa espiritual.
A superstição, por outro lado, pode ser mais sutil. Manifesta-se dando muita importância ao número de orações, posturas particulares, colocação de objetos religiosos ou “…mero desempenho externo, além das disposições internas que eles exigem…” (CIC, 2111).
IDOLATRIA
Nós nos iludimos se imaginarmos que os únicos ídolos que um indivíduo pode adorar são as divindades esculpidas veneradas pelos pagãos.
A idolatria consiste em divinizar o que não é Deus. O homem comete idolatria sempre que honra e reverencia uma criatura no lugar de Deus, sejam deuses ou demônios (por exemplo, satanismo), poder, prazer, raça, ancestrais, estado, dinheiro, etc. ... A idolatria rejeita o senhorio único de Deus ; é, portanto, incompatível com a comunhão com Deus. (CIC, 2113)
Basta olhar para a seção de publicidade de um jornal ou revista para identificar os deuses que foram criados para nos seduzir no século XXI. E aqui devemos reconhecer o poder verdadeiramente sedutor do pecado. Não somos desviados porque algo parece ser mau - afinal, quem escolheria algo porque é ruim? - mas precisamente porque parece ser bom. As opções - e a escolha - que enfrentaram nossos Primeiros Pais no Jardim são as mesmas que enfrentamos todos os dias.
MAGIC
As Escrituras estão repletas de exemplos de eventos futuros reveladores de Deus para Seus servos, e até hoje os místicos ocasionalmente recebem algum vislumbre do que o Criador tem reservado para nós. No entanto, estas são revelações extraordinárias, e o bom senso sugere que depositemos nossa confiança no amor providencial de Deus em vez de buscar sinais.
O ensinamento da Igreja sobre este assunto é inflexível e claro:
Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recorrer a Satanás ou demônios, conjurar os mortos, ou outras práticas falsamente supostas para “desvendar” o futuro... Elas contradizem a honra, o respeito e o temor amoroso que devemos somente a Deus. (CCC, 2116)
O texto continua, e aqui vemos quão verdadeiramente aterrorizante pode ser o fim para o qual alguns desses exercícios ocultistas levam.
Toda prática de magia ou feitiçaria, pela qual se tenta domar poderes ocultos, para colocá-los a seu serviço e ter um poder sobrenatural sobre os outros - mesmo que isso seja para restaurar sua saúde - são gravemente contrários à virtude. de religião. Estas práticas são ainda mais condenadas quando acompanhadas da intenção de prejudicar alguém, ou quando recorrem à intervenção de demónios. (CIC, 2117)
MARIA, NOSSO MODELO NA PRÁTICA
Papa João Paulo II convocou a viagem de Maria para visitar sua parenta Elizabeth “a primeira procissão eucarística”. Essa jornada representa tudo o que o Primeiro Mandamento nos chama a abraçar na prática diária de nossas vidas: amor singular a Deus, confiança na providência de Deus e desejo de fazer o que a virtude da religião exige.
São Lucas nos diz que quando o anjo partiu, Maria partiu "na pressa," um advérbio que o dicionário nos lembra significa não apenas com velocidade, mas com um propósito.
Na Divina Comédia de Dante, as almas do Purgatório expiando os pecados da preguiça meditam sobre a jornada de Maria para compartilhar as boas novas da Encarnação. As almas que aguardam sua redenção são estimuladas pelas palavras, "Pressa! Pressa! Para que não se perca tempo com pouco amor.”