Os 10 Mandamentos – O 8º: “Não darás falso testemunho”

Por Padre Reginald Martin, OP

ALÉM DO PRECEITO NEGATIVO

Como vimos em nossas reflexões sobre o quinto, sexto e sétimo mandamentos, esses preceitos são apresentados como regras negativas, mas nos impelem a adotar atitudes e ações positivas em nossas relações uns com os outros. Nosso Batismo é um Batismo no Corpo de Cristo, a Igreja. Este sacramento nos dá uns aos outros, e devemos respeitar o dom que recebemos e refletir quem o deu. Quando considera a ligação entre essas verdades essenciais e o oitavo mandamento, Nossa Catecismo observa,

O oitavo mandamento proíbe deturpar a verdade em nossas relações com os outros. Esta prescrição moral decorre da vocação do povo santo para dar testemunho do seu Deus que é a verdade e quer a verdade. As ofensas à verdade expressam por palavras ou atos a recusa de se comprometer com a retidão moral; são infidelidades fundamentais a Deus e, nesse sentido, minam os fundamentos da aliança. (CIC, 2464)

JESUS ​​E NÓS: REFLEXÕES DA VERDADE

Ao longo do evangelho, os evangelistas retratam Jesus como a personificação da verdade de Deus. Ele mesmo diz: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida," (Jo. 14:6) e esta verdade lança a luz de Deus sobre o mundo e fornece o exemplo para todas as nossas ações. Se considerarmos o assunto, isso não é mais do que deveríamos esperar de seres criados à imagem de Deus: se nos parecemos com Deus, devemos agir como Deus. Mark Twain, um tanto cinicamente observado, "Se você disser a verdade, não precisa se lembrar de nada." Em seu Sermão da Montanha, Jesus expressa a noção um pouco mais nobremente quando ensina: “Que o que você diz seja simplesmente 'Sim' ou 'Não'; qualquer outra coisa vem do mal”. (Mt. 5: 34)

O QUE É VERDADE?

Antes de continuarmos, podemos fazer bem em perguntar o que é a verdade. O dicionário define a verdade como “conformidade com o fato ou a realidade”. São Tomás de Aquino ensina, “…a verdade reside principalmente no intelecto, e secundariamente nas coisas como elas estão relacionadas ao intelecto como seu princípio.” (ST, 1, 16.1)

Isso é um pouco abstrato, então vamos considerar o exemplo que São Tomás usa, que é o de uma casa. A casa é “verdadeira” na medida em que corresponde à imagem na mente de seu arquiteto. Da mesma forma, na esfera natural e moral, Deus sabe o que as coisas devem ser – sejam rochas ou princípios morais. As coisas individuais são verdadeiras na medida em que correspondem à visão ideal do objeto na mente de Deus. Temos pouca dificuldade em identificar rochas “verdadeiras”; verdades morais, no entanto, que são fundamentais para nossas relações uns com os outros, podem, pelo menos ocasionalmente, ser um pouco mais difíceis de determinar.

UM DIREITO UNIVERSAL

E, no entanto, este é o desafio e o objetivo de nossa humanidade. Nosso Catecismo ensina, “O homem tende por natureza para a verdade. Ele é obrigado a honrar e testemunhar isso.” O texto se volta para Dignitatis Humanae, um dos documentos do Concílio Vaticano II, que afirma,

É de acordo com a sua dignidade que todos os homens, porque são pessoas... são ao mesmo tempo impelidos pela sua natureza e obrigados por uma obrigação moral de procurar a verdade, especialmente a verdade religiosa. Eles também são obrigados a aderir à verdade uma vez que a conhecem e dirigir toda a sua vida de acordo com as exigências da verdade. (CIC, 2467)

O Catecismo fornece então sinônimos de verdade, “veracidade, sinceridade ou franqueza. A verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro nos atos e verdadeiro nas palavras, e em guardar-se da duplicidade, da dissimulação e da hipocrisia”.

Podemos tomar essas noções como certas, mas se considerarmos a hipocrisia, que o dicionário define como “manter ou fingir manter atitudes ou crenças que na verdade não temos”, rapidamente percebemos que a verdade é um elemento absolutamente essencial na fundação de nossas crenças. Relações sociais. Contratos escritos podem obrigar indivíduos a realizar certas ações, mas as interações diárias mais simples seriam impossíveis se não pudéssemos confiar uns nos outros para dizer a verdade.

Vemos o imenso valor da verdade quando consideramos o papel que ela desempenha em cada decisão que tomamos. Antes de realizarmos qualquer ato, julgamos o ato e suas consequências contra a verdade da ação como a percebemos. Se fomos enganados, não podemos – nunca – tomar uma decisão informada. Este é um destino terrível de se considerar em nossas transações naturais, sociais e comerciais. Suas consequências espirituais podem ser fatais.

OFENSAS CONTRA A VERDADE: MENTIRAS

Os nossos Catecismo se volta para Santo Agostinho quando ensina, “A mentira consiste em falar uma falsidade com a intenção de enganar.” (CIC, 2482) O texto acrescenta,

Mentir é a ofensa mais direta contra a verdade. Mentir é falar ou agir contra a verdade para induzir alguém ao erro. Ao prejudicar a relação de um homem com a verdade e com seu próximo, uma mentira ofende a relação fundamental de um homem e de sua palavra com o Senhor. (CIC, 2483)

São Tomás de Aquino distingue entre três tipos de mentiras. A primeira é a mentira oficiosa, contada por conveniência, na qual ninguém é prejudicado. Aqui podemos pensar nas desculpas que inventamos para recusar um convite que não desejamos aceitar, ou (em tempos passados, quando um mundo mais simples dependia de telecomunicações mais primitivas) um pai instruindo um filho a dizer a um advogado por telefone: “Eu desculpe, meus pais não estão em casa.” O segundo tipo de mentira é o jocoso, contado por diversão, ou em que se exagera: “O peixe era deste tamanho”.

O terceiro tipo de mentira, o meretrício, é uma mentira verdadeira. Tal mentira geralmente não traz nenhum benefício ao narrador, mas prejudica a pessoa a quem ou sobre quem é contada. A mentira da serpente para Eva é uma ilustração perfeita desse tipo de mentira. Ninguém ficará surpreso ao saber que julgamos a gravidade de uma mentira pela qualidade da verdade que ela distorce, pelas intenções do indivíduo que conta a mentira e pelos males sofridos por aqueles contra quem a mentira é contada.

MENTIRAS ESPECÍFICAS: PERJÚRIO

O livro de Provérbios adverte: “A testemunha falsa não ficará impune, e o que profere mentiras perecerá”. (Pv 19:9) Mentir em público não é pouca coisa; mentir sob juramento, em um tribunal, é perjúrio, uma ofensa particularmente grave contra o oitavo mandamento. Aquele que comete perjúrio provavelmente não está considerando o uso indevido do dom de Deus que o ato representa, mas não devemos esquecer que recebemos a capacidade de falar para manter a ordem e a harmonia. Para fazer o contrário “…contribuir para a condenação de inocentes, exoneração dos culpados ou aumento da punição do acusado…” (CIC, 2476)

OUTRAS MENTIRAS

Não precisamos entrar em um tribunal, nem mesmo falar em voz alta, para ver os efeitos prejudiciais da mentira. Qualquer ato que destrua a reputação de outra pessoa viola o oitavo mandamento. Tais ações incluem

  • julgamento precipitado, que assume – sem provas – que alguém fez algo errado
  • detração, que é contar as falhas do outro para aqueles que não têm motivos para conhecer a informação
  • calúnia, que é mentir sobre o outro, e fazer com que os outros formem falsas opiniões negativas sobre o indivíduo.

JUSTIÇA E CARIDADE

“A honra é o testemunho social dado à dignidade humana, e todos gozam de um direito natural à honra de seu nome e reputação e ao respeito.” (CIC, 2479) O Catecismo aqui repete um tema que temos visto com frequência em nossa discussão sobre os mandamentos: a lei de Deus é dada para proteger os laços sociais que nos unem. A verdade não é mais do que merecemos; é também uma expressão de Justiça e Caridade. A justiça é a virtude pela qual damos a cada pessoa o que ela tem direito. A virtude da Caridade é o nosso desejo pelo bem do outro. Julgamento precipitado, depreciação e calúnia privam outra pessoa de justiça e certamente não manifestam caridade para com o indivíduo.

FALHAS ADICIONAIS

O Catecismo identifica outras formas mais sutis de mentira, que incluem bajulação, adulação e complacência. Todos os três são atos pelos quais nos esforçamos para nos tornar agradáveis ​​a outra pessoa, distorcendo a verdade sobre esse indivíduo. Se não buscamos nada além de um favor que outra pessoa pode conceder, nenhum desses atos é particularmente prejudicial. No entanto, cada uma dessas ações tem o potencial de se tornar gravemente pecaminosa se aprovar o comportamento imoral de outra pessoa, ou se nosso esforço para ganhar o favor de outra pessoa nos incita a participar da atividade imoral de outra pessoa.

O REMÉDIO PARA A MENTIRA

Considerar a verdade significa que devemos tomar medidas práticas para reparar qualquer dano que possamos ter causado mentindo. Se a mentira era pública, a reparação deveria ser pública. E se o indivíduo sofreu dano como resultado de uma mentira, ele ou ela deve ser indenizado por isso de alguma forma. Um pedido de desculpas é um bom lugar para começar o processo de emenda e é o menor passo que podemos dar para restaurar a Justiça e a Caridade que devem caracterizar nossas relações uns com os outros.

O VALOR DO SILÊNCIO

Embora nunca possamos mentir sobre outra pessoa ou sobre uma situação ou evento específico, nem sempre podemos ser obrigados a compartilhar qualquer verdade que saibamos. Os padres, por exemplo, podem nunca revelar o que ouviram no Sacramento da Reconciliação. Médicos, advogados e outros profissionais estão vinculados, até certo ponto, a códigos semelhantes. O Catecismo expressa o que não deve ser mais do que o senso comum quando afirma,

A caridade e o respeito pela verdade devem ditar a resposta a cada pedido de informação ou comunicação. O bem e a segurança dos outros, o respeito à privacidade e o bem comum são razões suficientes para calar o que não deve ser conhecido ou para usar uma linguagem discreta. O dever de evitar escândalos muitas vezes exige discrição estrita. Ninguém é obrigado a revelar a verdade a alguém que não tem o direito de conhecê-la. (CIC, 2489)

A tecnologia moderna oferece possibilidades quase infinitas para a transmissão de informações, mas com essa promessa vem uma responsabilidade correspondente. Quem utiliza as mídias sociais deve abraçar o desafio de usá-las com cuidado e respeito, transmitindo informações verdadeiras – e completas. Também aqui, porém, o valor da Justiça e da Caridade deve ser levado em conta e ponderado em relação ao aparente bem do conhecimento compartilhado. Devemos perguntar se o prêmio de ser o primeiro a anunciar as notícias vale o possível custo da reputação de outra pessoa.

TESTEMUNHO CRISTÃO DA VERDADE

Dissemos que a justiça é a virtude pela qual damos a cada um o que lhe é devido. Isso começa em nossas relações com Deus, a quem nos voltamos na oração que nada mais é do que Ele merece. Nosso abraço da Justiça continua em nosso testemunho de nossa fé, que atua para estabelecer a verdade ou torná-la conhecida. Realizamos isso de diversas maneiras, começando com o culto público e assumindo um papel ativo em nossa sociedade civil.

A TESTEMUNHA FINAL: O MARTÍRIO

O maior testemunho da fé, é claro, é o martírio, e a morte de um mártir é o maior tributo que se pode prestar a Cristo. Jesus deu Sua vida por nós, então a Justiça nos obriga a oferecer nossas vidas em troca. Se somos chamados a fazer o sacrifício heróico do martírio é decisão de Deus, mas o nosso Baptismo chama-nos a recordar que a morte é o preço da nossa ressurreição. Os mártires são os mais nobres de nossos companheiros em nossa busca espiritual, e os Catecismo presta-lhes imensa homenagem quando diz: “[Suas vidas] formam os arquivos da verdade escritos em letras de sangue.”

UM LINK INESPERADO: VERDADE E ARTE

O poeta John Keats encerrou sua “Ode sobre uma urna grega” observando, “A beleza é a verdade, a verdade é a beleza – isso é tudo o que você conhece na terra e tudo o que você precisa saber.” Os nossos Catecismo observa essa conexão entre verdade e beleza quando observa

…a verdade traz consigo a alegria e o esplendor da beleza espiritual. A verdade é bela em si mesma. A verdade em palavras, a expressão racional do conhecimento da realidade criada e incriada, é necessária ao homem, que é dotado de intelecto. Mas a verdade também pode encontrar outras formas complementares de expressão humana, sobretudo quando se trata de evocar o que está além das palavras: as profundezas do coração humano, as exaltações da alma, o mistério de Deus. (CIC, 2500)

Deus expressou Sua imaginação infinita quando criou o universo. Nós, que fomos criados à imagem de Deus, compartilhamos de Sua criatividade quando usamos nossos talentos artísticos para revelar e reproduzir a verdade de Deus nas imagens e sons que percebemos. Podemos não ligar imediatamente a arte às virtudes da Caridade e da Justiça, mas considere o que dissemos sobre essas virtudes. A justiça consiste em dar a cada um o que lhe é devido. Se nossa arte revela alguma verdade sobre a criação de Deus, nós realizamos um ato justo. Da mesma forma, se uma obra de arte aproxima alguém de Deus, alcançamos o objetivo da Caridade, que é desejar o bem do outro.

O oitavo mandamento demonstra uma verdade que muitas vezes observamos nestas reflexões: uma vez que começamos a estudar, podemos descobrir um mundo inesperado. Quem teria imaginado que o mandamento de Deus de evitar a mentira poderia nos levar a uma consideração da arte? E, no entanto, ambos estão enraizados no respeito pela verdade, que, por sua vez, revela nosso compromisso com a Justiça e a Caridade.

UMA PALAVRA SOBRE MARIA

Dificilmente deveríamos nos surpreender ao encontrar Maria como nosso exemplo de verdade. No Ladainha de Loreto, nós a honramos como “Espelho da Justiça” e “Virgem Misericordiosa”. Sua vida na terra, de Caná ao Calvário, foi dedicada a fazer com que aqueles que ela encontrasse recebessem o que ela pudesse lhes proporcionar – mesmo que isso não passasse de suas lágrimas. E nossa fé nos garante que ela dedica sua eternidade no céu para buscar o nosso bem. Seu Rosário é uma ferramenta poderosa para unir nossa vontade à dela; abracemos esse dom e permitamos que sua devoção à verdade se torne nossa.

Manter contato

Assine nosso boletim eletrônico para receber as novidades da Confraria