Os 10 Mandamentos - O 9º: “Não cobiçarás ...”

Por Padre Reginald Martin, OP

O Nono e o Décimo Mandamentos soam tão parecidos – “Não cobiçarás a mulher do teu próximo... Não cobiçarás os bens do teu próximo” – podemos nos perguntar o que os distingue. Nossa teologia ensina que a concupiscência é a característica distintiva.

CONCUPICIÊNCIA

Em latim, a palavra “concupiscência” significa “desejar fortemente”, e nossa Catecismo define a concupiscência como “…qualquer forma intensa de desejo humano. A teologia cristã deu-lhe um significado particular: o movimento do apetite sensível contrário à operação da razão humana”. (CCC, nº 2515)

A concupiscência é um dos resultados do Pecado Original. Não é pecaminoso em si, mas sua presença dentro de nós pode nos inclinar a fazer más escolhas morais quando confrontados com certas opções atraentes. A concupiscência é o que São Paulo tem em mente quando emprega a imagem muito adequada da carne se rebelando contra o espírito.

A IMPORTÂNCIA DA RAZÃO

Para que não imaginemos que o Nono Mandamento está nos incitando a abraçar um puritanismo moral, São Tomás de Aquino é rápido em apontar, “…ninguém pode viver sem algum prazer sensível e corporal.” (ST I-II, 34.1) O que diferencia os bons prazeres dos maus é o seu alinhamento com a razão. O exemplo que São Tomás usa é o ato sexual entre homens e mulheres. É louvável quando desfrutado por um casal, mas digno de censura quando adúltero.

CARNE vs ESPÍRITO

A luta entre nossa carne e nosso espírito é uma consequência do pecado e, a Catecismo observa, uma confirmação disso. Nosso crescimento moral nos ensina a manter um equilíbrio entre o que nossos sentidos acham atraente aqui e agora e nossas mentes nos dizem que nos levará à nossa felicidade final no céu. Este não é um processo que podemos empreender ou realizar com sucesso por conta própria. Assim, São João Paulo II escreve

Para o Apóstolo (S. Paulo) não se trata de desprezar e condenar o corpo que com a alma espiritual constitui a natureza e a subjetividade pessoal do homem. Antes, ele se preocupa com as obras moralmente boas ou más, ou melhor, com as disposições permanentes – virtudes e vícios – que são fruto da submissão (no primeiro caso) ou da resistência (no segundo caso) à ação salvadora de o espírito Santo. Por isso o Apóstolo escreve: “Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito”.

Em outras palavras, nossa entrega à vontade de Deus é o meio pelo qual somos capazes de escolher o que for melhor para nós a qualquer momento. Aqueles que seguiram nossas reflexões anteriores sobre as virtudes morais lembrarão que a virtude é um hábito e, como qualquer hábito, a virtude se torna mais fácil com a prática. A concupiscência nunca pode ser eliminada ou apagada de nossas vidas, mas seus efeitos negativos e influência podem ser moderados pelo antídoto da virtude, particularmente a virtude da Temperança.

O VALOR DA TEMPERANÇA

A história de um “Movimento de Temperança” nos Estados Unidos nos condicionou a pensar em Temperança em conexão com a moderação do uso de álcool, ou encorajar os cidadãos a renunciar completamente ao seu uso. Embora a moderação em relação à comida ou bebida certamente faça parte da virtude da Temperança, está longe de ser a única parte que devemos considerar para entender essa virtude.

A temperança se preocupa com as necessidades humanas mais básicas: a necessidade de comida e bebida, que garantem a sobrevivência do indivíduo, e a necessidade de garantir a perpetuação da raça humana, por meio das relações sexuais entre homens e mulheres. Uma vez que cada um deles está relacionado com o sentido do tato, e porque cada um é agradável, São Tomás de Aquino ensina que “…temperança é sobre os prazeres do toque” (ST 141.5).

Nosso sentido da palavra Temperança está intimamente ligado à nossa noção de quantidade, “quanto” de algo que precisamos ou planejamos usar. A virtude diz respeito a ordenar as coisas de nossa vida em seus devidos fins, que entendemos pela razão; portanto, a temperança é a virtude pela qual empregamos as coisas agradáveis ​​da criação apenas na medida exigida por nossas necessidades. Nosso Catecismo ensina

A temperança é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e proporciona equilíbrio no uso dos bens criados. Garante o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites do que é honroso. A pessoa temperante dirige os apetites sensíveis para o que é bom e mantém uma discrição saudável. CCC, nº 1809.

TEMPERANÇA E RAZÃO

À primeira vista, isso pode parecer uma receita para uma vida muito monótona, mas devemos lembrar que o propósito da virtude é nos tornar bons e tornar nossas ações boas. Quando consideramos a Temperança, nos encontramos mais uma vez considerando o papel da razão em nossas ações, e a necessidade de abraçar o meio-termo entre os extremos da autonegação prejudicial e a autogratificação imoderada que pode ser igualmente prejudicial.

Em vez de tirar o prazer da vida, a Temperança confere um controle calmo sobre as coisas que mais nos encantam, permitindo-nos desfrutá-las plenamente porque as desfrutamos na medida certa. o Catecismo cita um escritor cristão primitivo, que exortou seus ouvintes a “Permanecei simples e inocente, e sereis como criancinhas que não conhecem o mal que destrói a vida do homem.” (CIC, n. 2517) A temperança chama-nos à pureza de coração que Jesus recomenda no Sermão da Montanha.

OUÇA NOSSOS CORAÇÕES

Nossa era moderna fez duas coisas com o coração humano, e nenhuma é particularmente útil para nossa vida espiritual. Por um lado, nos tornamos bastante técnicos e nos ensinamos a ver o coração como a fonte mais importante de nossa saúde física. Por outro lado, sentimentalizamos o coração e o localizamos como o local de nossa vida emocional.

Nenhuma dessas visões está errada, mas cada uma está incompleta. Nas Escrituras, o coração é muito mais do que comumente reconhecemos. É o lugar onde encontramos nossa vontade, nosso pensamento e nossas emoções. Ser puro “de coração” é ser puro em todos os aspectos importantes do nosso ser, e Deus promete uma bênção aos puros de coração precisamente porque eles procuram ser fiéis em todos os sentidos.

Este é um ponto extremamente importante; não devemos espiritualizar as palavras de Jesus e imaginar que, enquanto mantivermos nosso coração puro, podemos fazer o que quisermos com o resto de nós mesmos. A pureza de coração é muito difícil de manter se essa for a única parte de nossas vidas onde a pureza conta. O Nono Mandamento nos chama a uma integridade espiritual. Experimentamos isso através de uma vida de caridade, castidade e amor à verdade. Essas qualidades podem parecer não relacionadas, mas Santo Agostinho observa

Os fiéis devem crer nos artigos do Credo “para que, crendo, obedeçam a Deus, obedecendo, vivam bem, vivam bem, purifiquem seus corações e, com corações puros, entendam o que acreditam”.

O VALOR DA VIRTUDE

O santo está nos dizendo que a virtude não apenas nos permite alinhar nossa vontade à de Deus, mas ajuda a remover o véu da ignorância que nos impede de penetrar na verdade de nossa fé. A recompensa futura por cultivar a pureza de coração é a promessa de ver Deus – face a face. Mas a recompensa começa agora, dando-nos olhos para ver “como Deus vê”, reconhecer os outros como vizinhos, não objetos, e olhar para o corpo humano “…nosso e do próximo – como templo do Espírito Santo, manifestação da beleza divina.” (CCC, nº 2519)

Essa percepção é um dom que recebemos no Batismo, mas é apenas um fundamento. Devemos nos esforçar, com a graça de Deus, para construir sobre ela, ao longo de nossas vidas. Fazemos isso pelos dons da castidade, pureza de intenção, pureza de visão e oração.

O DOM DA CASTIDADE

O Nono Mandamento, como a maioria dos outros, é apresentado como um preceito negativo: “Não cobiçarás a mulher do teu próximo”. Mas quando consideramos o Sexto Mandamento em uma reflexão anterior, refletimos sobre as palavras de São João Paulo II, que nos convida a olhar a palavra de Deus de uma forma mais positiva

Deus é amor e em si vive num mistério de comunhão amorosa pessoal. Criando a raça humana à sua própria imagem…. Deus inscreveu na humanidade do homem e da mulher a vocação e, portanto, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão.
(Familiaris Consórcio, 11)

A castidade é a virtude e o dom que nos capacita e nos fortalece para amar com corações não distraídos pelo desejo sensual.

O PRESENTE DA INTENÇÃO

Pureza de intenção é nosso esforço para discernir nosso verdadeiro fim. Nossa oração por simplicidade deve implorar a Deus que nos conceda a graça de ver, entender e cumprir Sua vontade em tudo o que nos esforçamos para realizar.

PUREZA DE VISÃO

Os nossos Catecismo cita o Livro da Sabedoria, que – bastante ameaçadoramente – adverte: “As aparências despertam anseio nos tolos”. A estreita relação do Nono Mandamento com a virtude da Temperança, e a união de ambas com o desejo de simplicidade e pureza de coração, nos impele a lutar pelo que os superiores religiosos historicamente denominaram “castidade dos olhos”.

Esta frase, sem dúvida, se explica. Nosso Catecismo, no entanto, expande-se e estende seu alcance para incluir, “… disciplina de sentimentos e imaginação, recusando toda cumplicidade em pensamentos impuros que nos inclinam a nos desviar do caminho dos mandamentos de Deus…” (CIC, No. 2520) O Nono Mandamento claramente nos convida a uma vida de respeito maduro e reverente uns pelos outros. Isso de forma alguma sugere que não podemos reconhecer ou celebrar os encantos dos outros; significa que não podemos sucumbir a uma atração inadequada desses encantos.

ORAÇÃO

Em suas Confissões, Santo Agostinho admite

Pensava que a continência surgia dos próprios poderes, que eu não reconhecia em mim. Eu fui tolo o suficiente para não saber... que ninguém pode ser continente a menos que você o conceda. Mas você certamente o teria concedido se meu gemido interior chegasse aos seus ouvidos e eu com um coração firme lançasse minhas preocupações sobre você.

Essas palavras expressam tanto nossa crença equivocada em nossa capacidade sem ajuda de alcançar a santidade pessoal quanto a necessidade de nos voltarmos para Deus para todas as nossas necessidades, mesmo as mais básicas. Nossa entrega completa a Deus é um elemento essencial de nossa castidade (continência). Ao mesmo tempo, o amor desinteressado de Deus (que deve ser distinguido do desinteressado) deve estabelecer o padrão para todas as nossas afeições.

A EXPRESSÃO PRÁTICA DA PUREZA: MODÉSTIA

Raramente pensamos na modéstia como parte da Temperança, mas as duas estão relacionadas. A temperança é a virtude que nos permite exercer controle sobre nossos desejos. A modéstia orienta como olhamos para os outros e nos encoraja a proteger o que deve permanecer oculto em nossas próprias vidas. Embora muitos possam zombar da noção “antiquada” de modéstia, ela incentiva o respeito pelo indivíduo e, em um momento em que a mídia moderna parece determinada a “dizer tudo” sobre todos, a modéstia guarda a vida interior de um indivíduo.

MODÉSTIA: O QUE E COMO?

São Tomás de Aquino descreve a modéstia como “moderação e contenção” no movimento e na ação do corpo, e discerne três aspectos da virtude: método, que é a capacidade de compreender o que devemos ou evitar fazer, refinamento ou decoro no que fazemos. fazer e gravidade – a maneira e a qualidade de nossa conversa com nossos amigos. (ST, II-II, 143)

Os nossos Catecismo descreve o papel tradicional da modéstia na vida cristã. “Encoraja a paciência e a moderação nos relacionamentos amorosos... [é] decência. Ele inspira a escolha de uma roupa. Mantém silêncio ou reserva onde há risco evidente de curiosidade doentia. É discreto.” (CCC, nº 2522)

MODÉSTIA E A MÍDIA

Se percebermos uma desconexão entre a modéstia e muitos anúncios que encontramos, ou nos sentirmos ofendidos pelas manchetes dos tablóides dos supermercados, isso provavelmente não é nada mais do que deveríamos esperar. Abraçar o Nono Mandamento é um desafio para abraçar uma “contracultura”, na qual nem o indivíduo nem o corpo humano reina supremo.

Ser modesto significa ser um sujeito, um indivíduo disposto a viver sob uma lei maior do que nossos próprios desejos e necessidades. E esta consciência deve levar-nos a uma valorização do valor dos outros indivíduos com quem partilhamos a cidadania no Reino de Deus. Todos os mandamentos da “segunda” tábua da lei regem nossas relações com os outros; a Nona nos lembra que nossos corpos são preciosos, preciosos demais para serem sacrificados aos caprichos da moda ou noções incompreendidas de liberdade humana.

A verdadeira liberdade, ensina nossa fé, é a disposição de nos deixarmos formar pela verdade da lei de Deus. Isso pode nos alinhar contra muitos aspectos de nossa cultura popular, mas devemos considerar as consequências eternas de nossas escolhas. Os anunciantes que prometem delícias requintadas hoje não são a fonte da bem-aventurança eterna que antecipamos no céu.

O EXEMPLO DE MARIA

A Ladainha de Loreto louva a Santíssima Mãe por sua prudência, castidade e sabedoria. A ladainha não faz menção à Temperança de Maria, mas devemos supor que esta estava entre as virtudes que adornavam sua vida. Encontramos uma ilustração encantadora dessa Temperança em suas ações durante as Bodas de Caná.

Quando o estoque de vinho do anfitrião acabou, Mary estava razoavelmente preocupada em fornecer mais. Ninguém jamais sugeriria que Mary estava defendendo a embriaguez. Por outro lado, ela percebeu muito claramente que uma certa quantidade de vinho era necessária para que as festividades continuassem. Sua intervenção resultou no que foi, sem dúvida, a quantidade adequada de vinho superior.

Suas ações em Caná são um delicioso reflexo da preocupação constante de Maria por nós, pois ela deu carne a Jesus, cuja Encarnação toma a “substância” aquosa de nossa humanidade e a transforma em algo muito mais precioso e delicioso. Da mesma forma, sua ordem aos servos em Caná, “Faça o que ele mandar” é um lembrete de que nossa felicidade eterna depende de cultivar a pureza de coração que Jesus ensina ser um requisito para a vida em seu Reino.

Manter contato

Assine nosso boletim eletrônico para receber as novidades da Confraria