Os Pecados Capitais: “Raiva”

Por Padre Reginald Martin, OP

RAIVA E NOSSAS RELAÇÕES SOCIAIS

Em sua Carta aos Efésios, São Paulo escreve:

Se você está com raiva, que seja sem pecado. O sol não deve se pôr em sua ira; não dê ao diabo a chance de trabalhar em você.

Essas palavras são parte de uma instrução maior sobre as relações que devem caracterizar as relações dos cristãos uns com os outros. Em outra parte de sua carta, São Paulo aconselha os efésios – e nós – a deixar de lado a falsidade e falar apenas a verdade, e trabalhar não apenas para atender às nossas próprias necessidades, mas às dos outros. E então ele acrescenta

Não saia de vossas bocas palavrões, mas somente o que for bom e edificante... para que dê graça aos que ouvem... e sede bondosos uns para com os outros, compassivos, perdoando-vos uns aos outros...

A chave para a advertência de São Paulo é sua compreensão de que, embora tenhamos sido criados como indivíduos, fazemos parte de uma sociedade grande e complexa. Viver em comunidade, como fazemos, significa que devemos considerar os objetivos e os bens dos outros, não apenas os nossos. O dom da razão, que nos diferencia do resto da criação de Deus, fornece a chave que nos permite viver em harmonia com os outros.

O DESAFIO MORAL DA VIDA SOCIAL

Quando ele considera os muitos desafios à nossa vida comum, um escritor contemporâneo, Kevin Vost, observa: “[raiva] é uma falha de nossa razão para controlar nosso apetite irascível que busca lutar contra coisas que frustram nossos desejos”. (Os Sete Pecados Capitais, p. 173) Nossa experiência nos ensina que o pecado e a virtude estão em extremos opostos de um espectro moral, e Vost estende a mão a São Tomás de Aquino para estabelecer uma imagem de fácil compreensão do que buscamos quando pecamos.

São Tomás observou que a virtude busca um único bem. Isso significa que as muitas coisas boas que encontramos na vida finalmente nos levam a abraçar o Bem Supremo, que é Deus, a fonte de todo bem. O pecado, por outro lado, abandona a bondade singular de Deus, para buscar e abraçar os muitos bens menores que capturam nossa imaginação. Nossa consideração por nós mesmos está no centro de qualquer escolha, e quando ele considera os pecados capitais, São Tomás de Aquino observa: “O pecado é causado por um amor próprio no qual nos voltamos para as coisas do mundo e nos afastamos de Deus”. (ST, I-II, 72.7)

São Paulo era um observador apto de nossa natureza humana e um psicólogo muito perspicaz. Viver com os outros significa que, pelo menos ocasionalmente, encontraremos nossos desejos frustrados. O resultado é bem provável que experimentemos um sentimento de raiva por não termos “conseguido nosso caminho”. Mas se estamos com raiva, diz São Paulo, “que seja sem pecado”. Se olharmos para trás e olharmos novamente para os companheiros desagradáveis ​​da raiva na lista de coisas a serem evitadas de São Paulo, podemos nos perguntar como a raiva poderia não ser pecaminosa. E aqui tanto a Escritura quanto nossa teologia vêm em nosso auxílio.

DEUS ESTABELECE O PADRÃO

Em sua carta aos romanos (13: 3-4) São Paulo nos admoesta a obedecer aqueles em autoridade. A autoridade suprema, é claro, é Deus, e nossa obediência deve ser fácil porque “[ele] não é um terror para a boa conduta, mas para a má…[e] ele não carrega a espada em vão…” autoridade “… é o servo de Deus para executar a sua ira sobre o malfeitor”. O que devemos notar aqui é que Deus estabelece o padrão para a ira. Se estamos com raiva, devemos ficar com raiva como Deus está com raiva, ou seja, nossa raiva deve estar dentro da razão e deve ser direcionada adequadamente.

UMA DISTINÇÃO

Os Antigos definiram a raiva como um desejo de vingança, e isso soa bastante aterrorizante. Até considerarmos que vingança é diferente de vingatividade. O dicionário define vingança como “o ato de punir o outro por um erro ou injúria que ele cometeu”. A vingança, por outro lado, é “a intenção de causar dano”. Se estamos com raiva porque uma pessoa fez algo errado, ou porque uma situação ou instituição é injusta, nossa raiva é apropriada – desde que identifiquemos adequadamente o objeto de nossa raiva e empreguemos nossa raiva para restaurar a ordem que deveria ser adequada ao comunidade cristã.

IRA VIRTUOSA

Jesus, que é nosso exemplo em todas as coisas, oferece um exemplo do que São Tomás de Aquino chama de ira “zelosa” quando expulsa do templo os cambistas e negociantes de gado. Os estudiosos podem argumentar que esses indivíduos eram necessários para os sacrifícios do templo, mas o ponto de Jesus, aparentemente, é que eles estão praticando seu comércio no lugar errado. E no relato de São Mateus, Jesus comenta algumas das práticas comerciais obscuras dos comerciantes, que transformaram o templo “em um covil de ladrões”.

IRA PECADORA

E aqui podemos permitir que São Tomás observe duas atitudes que tornam a raiva pecaminosa. A primeira é ficar com raiva muito rapidamente, ou sem motivo suficiente. A segunda é permitir que nossa raiva permaneça. Quando São João descreve a ira de Jesus no templo, ele a explica com uma referência aos Salmos: “O zelo pela tua casa me consumirá” (Sl 69.9)– um zelo que deveria consumir a todos nós. Cada um dos evangelistas registra o encontro de Jesus com os comerciantes, mas em todos os relatos, uma vez que o incidente acabou, acabou; o sol se pôs sobre a ira de Jesus, e ele está a caminho.

A FONTE DA IRA

Nosso Catecismo coloca a ira entre os primeiros males que herdamos como consequência do pecado de nossos Primeiros Pais.

No relato do assassinato de Abel por seu irmão Caim, a Escritura revela a presença da ira e da inveja no homem, consequências do pecado original, desde o início da história humana. O homem se tornou o inimigo de seu semelhante. (CCC, nº 2259)

Jesus aborda essa tragédia, em seu Sermão da Montanha, quando diz: “todo aquele que se irar contra seu irmão será julgado”. (Mt. 5: 22) Tão importante é a reconciliação na visão de nosso Salvador, que ele nos diz que devemos até interromper nossa adoração para buscar a paz.

Se você está oferecendo sua oferta no altar e ali se lembra de que seu irmão tem algo contra você, deixe sua oferta diante do altar e vá; primeiro reconcilie-se com seu irmão e depois venha e ofereça sua dádiva.

A IMAGEM MAIOR

A ira é um pecado oposto ao Quinto Mandamento, que nos obriga não apenas a respeitar a vida daqueles que nos rodeiam, mas a lutar – como Jesus nos ordena – pelo bem comum de nossa Igreja e sociedade civil. Embora a autoridade civil não tenha escolha, ocasionalmente, a não ser empregar a força ou outros meios severos para manter a ordem pública,

Se os meios incruentos são suficientes para defender vidas humanas... e proteger... a segurança dos indivíduos, o poder público deve limitar-se a tais meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais conformes à dignidade do bem comum. pessoa humana. (CCC 2267)

O ponto aqui é um que fizemos anteriormente, a vingança pode ser necessária; a vingança não tem lugar na sociedade cristã. Assim, Tomás de Aquino observa: “[a ira] pode ser um pecado mortal se, pela ferocidade de sua ira, um homem se afastar do amor de Deus e do próximo”. (ST, II-II, 158.4)

PREGUIÇA NÃO É VIRTUDE

O exemplo de Jesus demonstra que a ira virtuosa e zelosa tem um lugar na vida cristã. Podemos admirar aqueles indivíduos plácidos que nunca parecem estar com raiva, mas se essa aparente calma é o resultado de ignorar males que devem ser tratados, isso tem um custo, que pode ser tão prejudicial quanto a raiva desordenada. São João Crisóstomo advertido

Aquele que não está irado, embora tenha motivos para estar, peca. Pois a paciência irracional é o viveiro de muitos vícios, fomenta a negligência e incita não apenas os maus, mas também os bons a praticar o mal.

MANSIDÃO: O REMÉDIO PARA A RAIVA

Os dominicanos gostam de citar a máxima, Em medio stat virtus, “A virtude fica no meio”. Este é o espírito de moderação que São Paulo nos exorta a abraçar. E uma ajuda para este objetivo é a virtude da mansidão, que Jesus recomenda nas bem-aventuranças.

A mansidão, como a humildade, muitas vezes é mal interpretada como uma atitude rasteira e modesta. Na verdade, é muito mais e não tem nada a ver com timidez, fraqueza de caráter ou uma auto-imagem ruim. A mansidão é a virtude que modera a ira. Assim, quando Jesus diz que os mansos herdarão a terra, ele nos diz que os mansos são os mesmos indivíduos que poderiam muito facilmente tê-la tomado à força, mas que se deixam restringir pelo exemplo de Cristo que é manso e humilde de coração .

PERGUNTE AOS BURROS

Quando Jesus prometeu a terra aos mansos, sem dúvida ele estava identificando seu próprio povo, sujeito à ocupação estrangeira e pagã. Suas palavras nas bem-aventuranças ecoam o Salmo 37, no qual o salmista se alegra

Ainda um pouco e os ímpios não existirão mais... mas os mansos herdarão a terra e se deleitarão na abundância de prosperidade.

As recompensas apocalípticas pela paciência paciente ainda inspiram muitos indivíduos, e para os economicamente desfavorecidos e os politicamente oprimidos, as bem-aventuranças são uma forte e esperançosa promessa de reparação. Mas para a maioria de nós que vive no mundo econômico desenvolvido, as circunstâncias são muito diferentes. Para entendermos a bênção da mansidão, precisamos olhar o mundo por um momento do ponto de vista dos valentões.

São Tomás diz que “homens cruéis e impiedosos procuram, disputando e lutando, destruir seus inimigos para obter segurança para si mesmos”. Mesmo que não estejamos falando de acres de terra, quem de nós não é capaz de disputar e lutar até conseguirmos o que queremos? O objetivo é a segurança, e a mansidão nos lembra que não encontraremos segurança por meio da raiva. Ou um lutador melhor virá ou, se conseguirmos o que queremos discutindo, nos sentimos tão culpados que queremos devolvê-lo.

A BÊNÇÃO DA MANSÃO

Quando considera a mansidão, que modera a cólera, São Tomás de Aquino a vincula à virtude da clemência, que modera o castigo. Ele encontra imenso valor nesses dons, porque – ao nos permitir “resistir às más inclinações” – eles nos ajudam em nossa busca de santidade pessoal, bem como em nossa busca pela harmonia com aqueles entre os quais vivemos.

São Tomás escreve: “… a ira, que é mitigada pela mansidão, é, por causa de sua impetuosidade, um grande obstáculo ao livre julgamento da verdade do homem: portanto, a mansidão acima de tudo torna o homem autocontrolado”. (ST, II-II. 157.4)Clemência, ele observa, “… na medida em que mitiga o castigo, parece se aproximar … da caridade, a maior das virtudes, pois assim fazemos o bem ao próximo e impedimos o seu mal”. (Ibid.)

CHAVE PARA UMA VIDA SACRAMENTAL

Quando éramos pequenos aprendemos que os sacramentos são sinais exteriores, instituídos por Cristo para dar graça. Isso significa que Jesus escolheu certos elementos de nossas vidas para ir além de qualquer significado que eles tenham em si mesmos para nos permitir tocá-lo.

Meditar as bem-aventuranças nos ensina que ser pobre de espírito, chorar e ser manso é cultivar uma atitude sacramental em relação à criação – encontrar sinais do Reino dos Céus nas coisas que nos cercam em nossa vida cotidiana – e , mesmo que devamos ficar com raiva, para nutrir atitudes em relação ao mundo criado que nos tornarão os ministros, aqui e agora, da vida que esperamos desfrutar plenamente no futuro.

Este é o desafio que Jesus lança quando descreve o “... mordomo fiel e prudente a quem o senhor encarregará dos seus servos... Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, ao chegar, o encontrar fazendo-o. Em verdade vos digo que o senhor encarregará o servo de todos os seus bens”. (Lc 12:48)

UM PRESENTE DE CONFIANÇA

Nas parábolas do evangelho, o servo mais confiável é o mordomo, que tem as chaves que trancam o que é valioso e o que é perigoso. Ser mordomos de Deus é uma imensa honra, mas não devemos esquecer a admoestação de Jesus, “muito será exigido daquele a quem muito foi confiado”. Ser mordomo de Deus significa tratar a criação como Deus trata, e significa viver cada dia não como se fosse o último, mas como se o reino de Deus já estivesse aqui, plenamente revelado em nosso meio.

Vale a pena refletir sobre esta vocação e suas obrigações neste Ano da Misericórdia. Abraçar a mansidão significa deixar de lado – ou, pelo menos, moderar – nossa ira, para que nosso trato com o mundo se assemelhe mais claramente ao de Deus. Dentro Misericordiae Vultus, sua carta sobre o Ano da Misericórdia, nosso Santo Padre é rápido em observar que a misericórdia não diminui as exigências da justiça. No entanto, o Papa Francisco enfatiza que misericórdia e justiça são uma realidade unida que resulta em amor. Aceitando humildemente a misericórdia de Deus, progredimos em nossa peregrinação espiritual, guiados pelo amor de Deus. O Papa Francisco escreve: “…quem comete um erro deve pagar o preço. No entanto, este é apenas o começo da conversão, não o seu fim…” (MV, 21)

O EXEMPLO DE MARIA

O Papa Francisco é apenas o último dos escritores da Igreja a refletir sobre o papel misericordioso de Maria em nossa salvação:

Toda a sua vida foi modelada segundo a presença da misericórdia feita carne…. Aos pés da cruz, Maria... testemunhou as palavras de perdão ditas por Jesus. Esta suprema expressão de misericórdia para com aqueles que o crucificaram mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e se estende a todos, sem exceção. (MV, 24) Dirijamo-nos a ela com as palavras da Salve Regina… para que ela não se canse de dirigir sobre nós os seus olhos misericordiosos e nos torne dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.

Podemos ser perdoados, hoje em dia, se nos aproximarmos do noticiário da manhã com medo, e misericórdia provavelmente não é nosso primeiro pensamento quando lemos sobre ataques terroristas que ceifam a vida de compradores na Alemanha ou de um padre idoso celebrando missa na França. E, no entanto, Jesus implorou misericórdia para seus carrascos, e nos deu sua Mãe como exemplo, para que não esqueçamos como implorar – em mansidão – essa mesma misericórdia para aqueles que causam tanto estrago em nossas vidas.

Manter contato

Assine nosso boletim eletrônico para receber as novidades da Confraria