Os Pecados Capitais: “Avareza”

Por Padre Reginald Martin, OP.

AVARÍA: PECADO ESPIRITUAL OU FÍSICO?

Quando consideramos os pecados que são o triste resultado de nossa humanidade caída, podemos distingui-los de várias maneiras. Os Padres da Igreja, João Cassiano e Gregório Magno, viam os Pecados Capitais como espirituais ou físicos. Entre os primeiros estão aqueles que consideramos em nossas reflexões até agora: orgulho, inveja e raiva. A estes devemos agora adicionar avareza, que também chamamos de ganância, ou cobiça.

Chamar a ganância de pecado “espiritual” pode parecer estranho, mas São Tomás de Aquino observa:

Os pecados estão assentados principalmente nas afeições: e todas as afeições ou paixões da alma têm seu termo no prazer e na tristeza... Ora, alguns prazeres são carnais e outros espirituais. Os prazeres carnais são aqueles que se consumam nos sentidos carnais – por exemplo, os prazeres da mesa e os prazeres sexuais: enquanto os prazeres espirituais são aqueles que se consumam na mera apreensão da alma... a consideração de si mesmo como possuidor de riquezas. (ST, II-II, 118. 7)

A NECESSIDADE DA RAZÃO

Em reflexões anteriores, quando ponderamos o nono e o décimo mandamentos, encontramos a “concupiscência”, que nossos Catecismo define como “…qualquer forma intensa de desejo humano,” (CCC2515) Nossa teologia emprega esse termo para descrever a ação de nosso apetite sensível contra nossa razão quando nos deparamos com certas escolhas morais. A concupiscência é o que São Paulo tem em mente quando emprega a imagem da carne se rebelando contra o espírito. Observamos que o Nono Mandamento não nos incita a abraçar uma austeridade absoluta de vida. São Tomás de Aquino observa, “…ninguém pode viver sem algum prazer sensível e corporal.” (ST, I-II, 34.1) O que caracteriza os prazeres apropriados é serem governados pela razão.

UM LUGAR COM OS MANDAMENTOS

Os nossos Catecismo ensina o décimo mandamento “desdobra-se e completa a nona”. (CCC2534) A Nona proíbe desejos irracionais da carne; a Décima proíbe desejos irracionais de posses e governa os meios pelos quais as adquirimos. Como os outros mandamentos da “Segunda Tábua” do Decálogo, todos os quais regem nossas relações uns com os outros, o Décimo Mandamento está enraizado na justiça e, como vimos, na razão. São Tomás de Aquino observa,

...o bem do homem consiste em certa medida... [e] o homem procura, de acordo com certa medida, ter riquezas externas, na medida em que são necessárias para que ele viva de acordo com sua condição de vida. (ST, II-II, 118. 1)

Santo Tomás ensina que o vício da avareza entra quando damos as costas à moderação que deve caracterizar a nossa relação com os bens criados. Ele escreve:

... será um pecado para [um] exceder esta medida desejando adquirir ou manter [bens criados] imoderadamente. Isto é o que se entende por cobiça, que é definida como amor imoderado de possuir. (Ibid.)

A NECESSIDADE DE MODERAÇÃO

Aqui podemos refletir proveitosamente que nossas Escrituras são frequentemente citadas erroneamente. Frequentemente ouvimos: “O dinheiro é a raiz de todos os males”. De fato, o que São Paulo lembra a seu discípulo Timóteo é “O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males...” (1 hora 6.10) Aqui, novamente, encontramos a importante noção de moderação, que determina a moralidade de nossa atitude em relação às posses. Vivemos em uma sociedade comercial, então não temos escolha a não ser abraçar as regras e empregar os meios que a governam. Nossas ações se tornam pecaminosas quando permitimos que as regras nos governem.

POR QUE UM PECADO DE “Capital”?

Quando considera o que caracteriza um pecado “capital”, São Tomás encontra sua resposta nas outras ações pecaminosas que um pecado promove ou encoraja. Avareza é um pecado capital, ele argumenta, porque “as riquezas dão a grande promessa de auto-suficiência”. O Pregador, no Livro de Eclesiastes, observa muito cinicamente, “… o dinheiro responde a tudo.” (Ec 10.19) A avareza nos encoraja a esquecer nossa dependência de Deus e a cultivar um desdém por nossos semelhantes. Afinal, se possuímos riqueza suficiente para comprar tudo o que precisamos, que necessidade temos de outros indivíduos?

Mas o desdém por Deus e um desrespeito casual por nossos semelhantes não são os únicos pecados que resultam da avareza. Santo Tomás observa que, por ser um prazer excessivo em reter o que temos, “A cobiça dá origem à insensibilidade à misericórdia, porque… o coração de um homem não é abrandado pela misericórdia para ajudar o necessitado com suas riquezas”. (ST. II-II, 118.8) Essas palavras assumem uma pungência especial à medida que este Ano Extraordinário da Misericórdia se aproxima, e nos desafiam a perguntar se nosso desejo de “possuir” pode ter nos cegado para a situação dos necessitados.

O DESAFIO DA MISERICÓRDIA

Nossa teologia ensina que a Misericórdia é a tristeza pela aflição do outro, associada a uma ação prática para aliviá-la. A misericórdia exige olhar além de nós mesmos, considerar a situação das muitas almas infelizes com quem compartilhamos nosso planeta. Isso nos une a Jesus, que, em Misericordiae Vultus ("A Face da Misericórdia“), sua carta de apresentação deste Ano da Misericórdia, nosso Santo Padre nos lembra,

…não é nada além de amor, um amor dado gratuitamente. As relações que ele estabelece com as pessoas que se aproximam dele manifestam algo inteiramente único e irrepetível. Os sinais que ele opera, especialmente em favor dos pecadores, dos pobres, dos marginalizados, dos doentes e dos sofredores, todos servem para ensinar a misericórdia. Tudo nele fala de misericórdia. Nada é desprovido de compaixão. (MV, 8)

O Santo Padre continua, “A Igreja é incumbida de anunciar a misericórdia de Deus, o coração pulsante do Evangelho, que a seu modo deve penetrar no coração e na mente de cada pessoa”. (MV, 11) Estas palavras refletem a tradição da Igreja de que os dons nunca são dados simplesmente para enriquecer o indivíduo que os recebe; eles são dados, em confiança, para o benefício de toda a comunidade.

“O DINHEIRO RESPONDE A TUDO”

A avareza é uma negação dessa verdade, e quanto mais ela é adotada, maior a ameaça que representa para a vida espiritual de um indivíduo. Em nossa sociedade capitalista, estamos cercados de “mercados” – reais ou simbólicos. O Pregador em Eclesiastes observou que “o dinheiro responde a tudo”, e não podemos negar a utilidade da riqueza mesmo modesta, que permite a um indivíduo realizar muito bem.

Mas a eficiência dos mercados do mundo – como a retidão moral de quem os usa – deve ser construída sobre um fundamento de Justiça, e São Tomás apontou vários perigos morais representados pela Avareza. Caso o dinheiro não responda na busca de um indivíduo por uma posse, a Avareza pode sugerir o uso da força ou violência para garantir o bem desejado. Mas mesmo que não leve os indivíduos a infligir danos físicos para atingir seus objetivos, a avareza pode minar as relações que deveriam governar nossas relações humanas. A mentira perverte o valor da fala humana, e o perjúrio – mentir sob juramento – aumenta a gravidade do pecado.

OS EFEITOS DA AVARÍA

Quando a avareza leva alguém a abraçar a falsidade no desejo de ganhar (ou proteger) bens materiais, São Tomás diz que encontramos o pecado da fraude. Quando o desejo de ganho leva alguém a trair outra pessoa, sucumbimos à traição – a consequência moral da traição de Judas a Jesus. (ST, II-II, 118.8)

Estas considerações lembram as palavras do Papa Francisco pedindo uma mudança de coração entre

…homens e mulheres pertencentes a organizações criminosas de qualquer tipo…Não caiam na terrível armadilha de pensar que a vida depende do dinheiro e que, em comparação com o dinheiro, qualquer outra coisa é desprovida de valor ou dignidade. Isso não passa de uma ilusão! Não podemos levar dinheiro conosco para a vida além. O dinheiro não nos traz felicidade. A violência infligida para acumular riquezas encharcadas de sangue não torna ninguém poderoso nem imortal. (MV, 19)

O REMÉDIO DA LIBERALIDADE

O remédio para a avareza é a liberalidade, que São Tomás define como fazer bom uso “… as coisas deste mundo que nos são concedidas para nosso sustento.” (ST, II-II 117.1) As palavras essenciais nesta definição são “bom uso”. Santo Agostinho escreveu, “Pertence à virtude usar bem as coisas que podemos usar mal” e a liberalidade é um bom uso da generosidade de Deus. Isso significa não apenas fazer bom uso de nossos recursos, mas também colocá-los em bom uso pelo motivo certo. Por exemplo, não estamos sendo liberais ao fazer uma grande contribuição para um hospital se tudo o que buscamos é o reconhecimento por nosso dom.

Ao mesmo tempo, a liberalidade não tem nada a ver com a quantidade de um presente. A virtude está totalmente relacionada com a capacidade do indivíduo de fazer a dádiva. Assim, um pobre pode ser bastante liberal, como observou Santo Agostinho, “A liberalidade é proporcional à substância de um homem, isto é, seus meios, pois não consiste na quantidade dada, mas no hábito do doador.” Como ilustração, podemos considerar a resposta de Jesus à contribuição da viúva para o Templo, “Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos… porque eles contribuíram com o que tinham em abundância, mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que tinha para viver”. (Lk 21.3)

LIBERALIDADE E JUSTIÇA

A virtude da Justiça nos leva a dar a outra pessoa o que ela tem direito. A liberalidade, ao contrário, nos leva a dar o que temos direito. St. Thomas, e outros, vêem uma conexão entre Liberalidade e Justiça por duas razões. Primeiro, porque (como a Justiça) a Liberalidade é dirigida a outra pessoa. Em segundo lugar, tanto a Liberalidade quanto a Justiça estão preocupadas com coisas externas. E aqui podemos ver um vínculo com a Misericórdia, que nos desafia a imitar Nosso Salvador que, nas palavras de nosso Santo Padre, “saiu para todos, sem exceção.” (MV, 12)

A LIBERALIDADE E A CRUZ

Em uma reflexão anterior mencionamos um moralista contemporâneo, Kevin Vost. Em seu livro, Os Sete Pecados Capitais, Vost cita Fulton Sheen, que percebeu um remédio para a avareza nas últimas palavras de Jesus na Sexta-feira Santa, “Pai, em tuas mãos, entrego meu espírito.” Sheen escreveu,

    1. Quanto mais laços tivermos com a terra, mais difícil será para nós morrermos.
    2. Nós nunca fomos feitos para estarmos perfeitamente satisfeitos aqui embaixo.

(vost, p. 133)

Jesus assumiu nossa carne para passar por cada momento de nossa existência humana. Não para não precisarmos, mas para nos mostrar como. Assim, sua vida ilustra as lições que devemos adotar de nossa consideração de avareza e liberalidade. Vost resume essas lições quando observa,

Tudo o que qualquer um de nós terá que levar de volta a Deus em nosso... último dia serão as coisas do espírito... nossas próprias almas. …Não haverá mais dólares para ganhar, não mais bens para acumular, e seremos julgados pelo peso não de nossa riqueza, mas de nossa caridade. (Ibid.)

INSPIRAÇÃO NAS PALAVRAS DE MARIA

Nossa Mãe Santíssima dá voz à nossa vocação à Liberalidade quando, em sua Magnificat, ela louva a Deus, que “encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos”. O hino de Maria descreve o cuidado universal de Deus pela humanidade e Seu desrespeito pelo lucro obtido pela avareza. Em nossas vidas, não podemos imitar o alcance global do alcance misericordioso de Deus, mas Maria nos convida a louvá-lo com ela e a abraçar seu exemplo em nossas relações uns com os outros – e talvez especialmente em nossa preocupação pelos pobres.

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