Os Pecados Capitais: “Inveja”
Por Padre Reginald Martin, OP
O BEM DA SENSAÇÃO
Nosso apetite sensível, aquela parte de nossa natureza que governa nossos sentimentos físicos, direciona nosso anseio pelas coisas boas que nos faltam. Nosso Catecismo emprega um exemplo muito concreto quando menciona que nosso apetite nos direciona para a comida quando estamos com fome, ou para o calor quando estamos com frio. (CCC, nº 2535) Tais desejos são bons em si mesmos porque nos protegem e asseguram nossa saúde. No entanto, eles podem se tornar pecaminosos se “exceder os limites da razão e nos levar a cobiçar injustamente o que não é nosso e pertence a outro ou lhe é devido”.
LIMITES DA SENSAÇÃO: O 10º MANDAMENTO
O que é essencial para compreender o ensinamento do Catecismo é sua ênfase na razão e na justiça. Os economistas dizem que “ninguém jamais revogará a Lei da Oferta e da Demanda”, então existem mercados para que os indivíduos possam oferecer bens em troca da riqueza e dos ganhos de outros. Isso não é mais do que o senso comum e a experiência demonstram. Mas nosso treinamento moral ensina que não podemos tirar a riqueza dos outros pela força, nem podemos tentar triunfar na miséria de outro.
Em uma reflexão anterior, quando consideramos o Décimo Mandamento, discernimos que este mandamento é aquele que governa nossas relações com os outros, e nosso Catecismo cita o Catecismo Romano, que adverte
...comerciantes que desejam escassez e preços crescentes, que não suportam não ser os únicos a comprar e vender para que eles próprios possam vender mais caro e comprar mais barato; aqueles que esperam que seus pares sejam empobrecidos, a fim de obter lucro vendendo para eles ou comprando deles... médicos que desejam que a doença se espalhe; advogados que estão ansiosos por muitos casos e julgamentos importantes. (CCC, nº 2537)
TRISTEZA NO LIMITE: INVEJA
O que devemos notar nessas palavras é sua ênfase no desejo injusto dos indivíduos de ter sucesso às custas de seus vizinhos, bem como sua descrição da tristeza que esses indivíduos sentem quando um concorrente se destaca às suas custas. Essa tristeza nos coloca frente a frente com o pecado da inveja.
São Tomás de Aquino define a inveja como tristeza pelo bem do outro. (ST, II-II, 36,1) Mas para que não sejamos desviados pela aparente simplicidade dessa definição, Tomé é rápido em distinguir entre tristeza pecaminosa e não pecaminosa. A última, tristeza não pecaminosa, inclui o medo de que o bem de outra pessoa possa nos causar algum dano – algo que os alunos experimentam quando fazem exames competitivos, ou o medo razoável que uma nação pode sentir se um governo totalitário assumir o poder. Da mesma forma, podemos identificar zelo, o que nos leva a ansiar e lutar pelos bens espirituais que outros possuem, mas nós não. Finalmente, São Tomás considera indignação, algo que experimentamos quando as pessoas recebem coisas boas ou honras que não merecem.
INVEJA x CARIDADE
São Tomás ensina que a verdadeira inveja ocorre quando “… sofremos pelo bem de um homem na medida em que seu bem supera o nosso… porque fazê-lo é lamentar o que deveria nos alegrar, [a saber] o bem do nosso próximo. ” Aqui podemos nos referir com proveito, por um momento, à indignação, que é uma tristeza razoável por outros receberem honras ou riquezas que não merecem. Isto é o que o salmista lamenta quando clama: “Fiquei cheio de inveja dos orgulhosos, quando vi como os ímpios prosperam”. (Salmos 72:2) Tal indignação é justificada; o pecado da Inveja, por outro lado, opõe-se à Virtude da Caridade, que nos impele a regozijar-nos por os outros receberem o bem que merecem ou conquistaram. Em sua Primeira Carta aos Coríntios, São Paulo nos lembra que a maior das virtudes teologais é a Caridade. (I Cor. 13:13) Que a inveja deve ser oposta à maior das virtudes fornece uma visão de sua gravidade.
INVEJA, ORGULHO E SEUS FILHOS
O poeta e dramaturgo do século 18, John Gay, escreveu: “A inveja é um estímulo mais forte do que o pagamento”, o que sugere que a inveja pode ter um lado positivo. Se assim for, só Gay parece ter discernido. Desde os nossos primeiros dias, os teólogos da Igreja identificaram a inveja como um defeito derivado do orgulho e fonte de vários males, entre eles rolamento de conto e depreciação. Os dois são idênticos em seu propósito, que é rebaixar o indivíduo aos olhos do mundo; eles diferem apenas em seus meios. A depreciação é o uso de um fórum público para menosprezar as realizações de uma pessoa – talvez fazendo piadas ou comentários humilhantes na presença do indivíduo. O uso de contos é uma fofoca privada pela qual uma pessoa procura secretamente prejudicar a reputação de outra.
No início desta reflexão observamos a definição de inveja de São Tomás de Aquino como tristeza pelo bem alheio, que o narrador certamente experimenta se a fofoca e a difamação falham em seu esforço para prejudicar a reputação de outra pessoa. Se, por outro lado, os esforços são bem-sucedidos, o pecador experimenta mais uma manifestação de inveja, que é a alegria pela desgraça alheia. Em ambos os casos, vemos imediatamente que a inveja é totalmente oposta à caridade que deve caracterizar nossas relações uns com os outros.
AS CONSEQUÊNCIAS DA INVEJA: ISOLAMENTO
Se considerarmos o orgulho do qual brota a inveja e as ações que a inveja gera, vemos muito claramente que cometer o pecado da inveja é isolar-nos do Corpo de Cristo no qual fomos batizados. Este é um estado assustador, e São João Crisóstomo advertiu
…a inveja nos arma uns contra os outros…Se todos se esforçarem para desestabilizar o Corpo de Cristo, onde iremos parar? Estamos empenhados em tornar o Corpo de Cristo um cadáver... Nós nos declaramos membros de um mesmo organismo, mas nos devoramos uns aos outros como bestas.
A imagem comum do Inferno é, sem dúvida, um lugar de fogo eterno. Mas em Dante Inferno, quanto mais o poeta se aproxima do próprio lugar de tormento do Diabo, mais frio ele encontra o ambiente. Isso porque quanto mais ele se aproxima de Satanás, mais ele se afasta da caridade de Deus. Compare isso com a imagem bíblica de Cristo, que é de luz, uma imagem que lembramos todos os domingos, quando repetimos as palavras do Credo Niceno.
Thomas Merton disse que a invenção mais triste da era moderna foi a luz artificial, porque nos permite ignorar a diferença entre luz e escuridão. A luz tornou-se tão barata que a tomamos como certa e não consideramos mais seus benefícios. De fato, a luz concede uma série de presentes ao nosso mundo: torna as coisas brilhantes e as aquece. E se alguma vez atravessamos um estacionamento vazio à noite, percebemos que a luz também torna nosso mundo seguro.
ESCURIDÃO ESPIRITUAL E FRIO
Compare isso com a escuridão do pecado, o mundo em que Judas entrou quando abandonou Jesus e seus irmãos discípulos, na Última Ceia. “E era noite”, conta-nos St. John. A noite em que Judas entrou não foi simplesmente uma hora do dia, foi uma realidade espiritual desprovida da luz, do calor e da segurança do amor de Cristo. Se olharmos para Judas, percebemos que cometer pecado não apenas nos distancia uns dos outros no Corpo de Cristo; isola-nos do calor seguro e consolador do amor de Cristo. Se permitirmos que a inveja nos cegue tão completamente a ponto de persistirmos em abraçar nosso próprio bem percebido sobre o do outro, estamos condenados, eventualmente, a nos encontrar sozinhos e frios, isolados em um universo espiritual solitário.
UMA ALTERNATIVA ABENÇOADA
Este não é o destino para o qual fomos criados. Nosso Catecismo Nos lembra
A economia da lei e da graça afasta os corações dos homens da avareza e da inveja. Ela os inicia no desejo do Bem Soberano; ela os instrui nos desejos do Espírito Santo que satisfaz o coração do homem. (CCC, nº 2541)
No início do relato do evangelho de São Mateus, lemos: “[Jesus] os ensinou, dizendo: 'bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus'”. (Mt. 5: 2) Com as bem-aventuranças, Jesus pretende que suas palavras conduzam seus ouvintes para longe de uma dependência desordenada dos bens materiais e das honras do mundo. E ele também pretende essas palavras para nós. Uma grande multidão ouve o Sermão da Montanha de Jesus, mas São Mateus nos diz que Jesus dirigiu suas palavras aos seus discípulos. Isso significa que devemos ter uma atenção especial, pois sempre que encontramos Jesus falando aos discípulos, ele está falando a nós, a Igreja.
A BÊNÇÃO DA POBREZA
Quando consideramos a pobreza de espírito, a primeira coisa que precisamos lembrar é que Jesus elogia a pobreza precisamente porque aqueles que economicamente privados nesta vida não têm nada a que se agarrar, exceto a promessa de que as coisas serão melhores em um mundo melhor; As Escrituras condenam os ricos porque um espírito de irresponsabilidade muitas vezes acompanha a riqueza. Cultivando uma pobreza de espírito é um remédio para a inveja porque nos ajuda a encontrar a fonte de nossa verdadeira felicidade em Jesus, em vez de coisas criadas ou honras. Isso nada mais é do que Jesus exorta quando adverte: “quem de vocês não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo”. (Luke 14: 33)
OLHAR SEM
A pobreza de espírito nos permite olhar além de nós mesmos e abraçar os muitos outros membros do Corpo de Cristo com os quais somos chamados à união pelo nosso Batismo. Kevin Vost, autor de Os Sete Pecados Capitais, escreve que a pobreza de espírito restaura as relações que deveriam caracterizar essa unidade. Para atingir esse objetivo, ele sugere “uma espécie de 'três R's internos” quando somos tentados a invejar – “não ler, 'ritmar' e 'ritmar', mas reação, reflexão e resolução'. ” (P. 113)
OLHANDO PARA DENTRO
Vost sugere que cultivemos o primeiro deles, reação, reconhecendo os movimentos iniciais de inveja quando ficamos sabendo da boa sorte de outra pessoa. Para compensá-los, devemos nos treinar para reconhecer o que está acontecendo dentro de nós e perguntar: “A inveja está se aproximando de mim?” Uma vez que percebemos que estamos sentindo inveja, Vost diz que estamos diante de uma escolha: o momento é propício para perguntar se vamos cultivar os sentimentos negativos ou esmagá-los. Finalmente, devemos dar uma olhada em nossa reação. Se permitimos que nossos sentimentos de inveja se concretizem em alguma ação que rebaixa o outro, ou simplesmente nos permite render-nos à tristeza de não termos sido tão abençoados como um de nossos vizinhos, devemos nos perguntar o que podemos fazer para o assunto aqui e agora (o Sacramento da Reconciliação é um remédio sempre presente) e como podemos agir de forma diferente no futuro.
OLHANDO PARA CIMA
A pobreza de espírito realiza outro – e mais profundo – efeito, que é o ordenamento adequado de nossas relações com Deus. Assim, nossa Catecismo nos lembra: “Para possuir e contemplar a Deus, os fiéis de Cristo mortificam seus desejos e, com a graça de Deus, prevalecem sobre a sedução do prazer e do poder”. (CCC, nº 2249) Quanto mais bem conseguirmos realizar esta mortificação, encoraja-nos Santo Agostinho, tanto mais perfeitamente alcançamos a união com Deus a que o nosso Baptismo nos chama.
Haverá verdadeira glória, onde ninguém será elogiado por engano ou lisonja; a verdadeira honra não será recusada aos dignos, nem concedida aos indignos; da mesma forma, ninguém indigno fingirá ser digno, onde somente aqueles que são dignos serão admitidos. Lá reinará a verdadeira paz, onde ninguém experimentará oposição de si mesmo ou de outros. O próprio Deus será a recompensa da virtude; dá a virtude e prometeu dar-se como o melhor e maior galardão que pudesse existir...” Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo...” Este é também o sentido das palavras do Apóstolo: “Para que Deus seja tudo Em tudo." O próprio Deus será o alvo de nossos desejos; devemos contemplá-lo sem fim, amá-lo sem fartura, louvá-lo sem cansaço. Esse dom, esse estado, esse ato, como a própria vida eterna, certamente será comum a todos.
O EXEMPLO DE JESUS
Nisto, como em todas as coisas, nosso exemplo é Jesus. Um dos primeiros escritores da nossa Igreja (Basílio de Cesaréia, 329-379 d.C.), destacou que o ensino nas bem-aventuranças é sempre precedido por uma ação, uma ação do próprio Jesus. Portanto, Jesus pode exortar-nos à pobreza de espírito, porque
... sendo rico por natureza, porque todos os bens do Pai são seus, ele se fez pobre por nossa causa para nos enriquecer com sua pobreza... para presente de sua plenitude.
O EXEMPLO DE MARIA
E, claro, temos o exemplo da Santíssima Mãe de Nosso Salvador. No dele Verdadeira Devoção a Maria, St. Louis de Montfort observou: “Estou falando principalmente para os pobres e simples que têm mais boa vontade e fé do que o comum dos estudiosos”. (pág. 26) A pobreza econômica que supera tantos povos do mundo – e sobre a qual esses indivíduos não têm escolha – força a pessoa a ver o mundo em termos muito reais, de vida ou morte.
A pobreza voluntária, por outro lado, está intimamente ligada à humildade, a virtude pela qual vemos tudo o que temos e tudo o que somos, como dom de Deus. A humildade permite que nos vejamos como realmente somos, em relação a Deus. Reconhecer nossa força, beleza, talentos e habilidades não é mais do que certo – desde que reconheçamos Deus como sua fonte. Quando ela pronuncia as palavras majestosas de sua Magnificat, a Santíssima Virgem dá as costas ao próprio indício de falsa modéstia. “Todas as gerações me chamarão bem-aventurada”, diz ela, [pois] ele “exaltou os humildes”.
A RIQUEZA DA POBREZA
Ser pobre de espírito é ver – e se alegrar – tudo o que somos capazes, por causa da ação de Deus em nossa vida e na vida daqueles que nos rodeiam. Kevin Vost cita Luís de Granada, que observou este resultado
Quando você inveja a virtude de outro, você é seu maior inimigo [mas] se você continua em estado de graça, unido ao seu próximo pela caridade, você participa de todas as boas obras dele, e quanto mais ele merece, mais rico você vir a ser. Longe, portanto, de invejar sua virtude, você deve encontrá-la uma fonte de consolo... [e] o lucro de seus trabalhos também se tornará seu.
Quando identificamos Deus como a fonte de nossa bênção, não temos necessidade de inveja. E nos tornamos livres para nos regozijar nos presentes que ele concedeu a nossas irmãs e irmãos.