Os Pecados Capitais: “Luxúria”

Por Padre Reginald Martin, OP

O PRESENTE E O CUSTO DA SEXUALIDADE HUMANA

Vários anos atrás, quando consideramos o Sexto Mandamento, observamos que a sexualidade humana é uma bênção imensa, que vem com o preço correspondentemente alto de nossa responsabilidade humana. O primeiro ato dessa responsabilidade é lembrar que o homem e a mulher são igualmente criados à imagem de Deus. Portanto, o Catecismo observa, citando o Papa São João Paulo II, “Deus dá ao homem e à mulher uma dignidade pessoal igual”. (CCC, nº 2334) Esta dignidade realiza-se de forma mais visível e completa no matrimónio cristão. A velha advertência lida aos casais na cerimônia de casamento os lembrou que no Sacramento do Matrimônio, Deus

…deu ao homem uma parte na maior obra da criação, a obra da continuação da raça humana. E assim ele santificou o amor humano e permitiu que o homem e a mulher se ajudassem a viver como filhos de Deus, compartilhando uma vida comum sob seu cuidado paterno.

O CASAMENTO FIXA O PADRÃO

As palavras desta admoestação são um elegante resumo do ensinamento da Igreja sobre o uso adequado da nossa sexualidade humana. E ao embarcarmos na triste tarefa de considerar o pecado da luxúria, nos veremos repetidamente contrastando esse pecado com o exemplo virtuoso de desfrutar o dom da sexualidade humana no contexto do casamento.

LUXÚRIA: UMA DEFINIÇÃO

São Tomás de Aquino normalmente fornece definições que são bastante detalhadas e requerem estudo sério se quisermos compreendê-las completamente. Quando ele aborda a luxúria, no entanto, o Doutor Angélico estabelece um padrão de simplicidade, observando apenas

Os prazeres venéreos [sexuais] acima de tudo debocham a mente do homem. Portanto, a luxúria está especialmente preocupada com prazeres semelhantes. (ST II-II, 153.1)

O TRANSTORNO DA LUXÚRIA

Ele continua: “Um pecado, nos atos humanos, é o que é contra a ordem da razão”, e acrescenta: “… a ordem da razão consiste em ordenar tudo ao seu fim de maneira adequada”. (ST II-II, 153.2) Essas palavras são a chave para entender o pecado da luxúria: é um mau uso de nossa sexualidade humana, cujo prazer é projetado para aproximar os cônjuges e garantir o futuro de nossa raça humana.

Ninguém questionará a seriedade de continuar a raça humana. A necessidade de prover nosso futuro nos ajuda a entender a importância de nossa sexualidade – e a compreender a gravidade de seu mau uso. Aqui, novamente, São Tomás oferece uma reflexão sábia,

Quanto mais necessária uma coisa, tanto mais convém observar a ordem da razão a seu respeito; [da mesma forma] mais pecaminoso se torna se a ordem da razão for abandonada. (ST II-II, 153.3)

AS CONSEQUÊNCIAS DA LUXÚRIA

A luxúria é um pecado grave porque nos afasta dos verdadeiros objetivos para os quais recebemos o dom de nossa sexualidade. No entanto, porque os prazeres físicos prometidos pela luxúria são tão grandes, a luxúria pode se intrometer em nossas vidas, confundindo nossas faculdades superiores, mentais e espirituais – nossa razão e nossa vontade – também.

ALGUNS EXEMPLOS

Quando ele considera a destruição que a luxúria pode causar em nossa vida cristã, São Tomás cita imprudência, que é uma falta de moderação ou controle. Assim também é descuido, o que afeta nossa capacidade de julgar entre o certo e o errado, e inconstância, que é uma incapacidade de permanecer fiel aos nossos compromissos.

Os efeitos da luxúria em nossa vontade são duplos, e ambos envolvem a luxúria nos tentando a escolher a nós mesmos, e o que percebemos como nosso bem imediato e pessoal, acima dos imensos (mas invisíveis) benefícios que Deus promete no futuro. O primeiro desses efeitos é uma confusão de fins próprios, a saber, egoísmo que pode se tornar tão grande que resulta em um ódio de Deus porque Ele proíbe um prazer que tanto desejamos.

A segunda é uma confusão das coisas dirigidas ao seu próprio fim. Isso resulta em um amor deste mundo e desespero de um mundo futuro. Este não é o pecado do desespero, pelo qual acreditamos que não podemos ser salvos, mas sim um compromisso tão completo com nossos prazeres sexuais que perdemos o interesse nas coisas boas que Deus promete no futuro.

SEXO E NOSSO MUNDO MODERNO

Aqui, talvez, encontremos uma pista para a presença esmagadora do sexo em nossa sociedade. Precisamos considerar quase qualquer anúncio que vemos hoje em dia; quase todos prometem o que os sociólogos chamam de “gratificação instantânea”. Podemos identificar as falhas nessa promessa, mas não podemos negar seu apelo. Tampouco podemos negar que as promessas de Deus às vezes podem empalidecer em comparação. Em meados do século passado, um teólogo dominicano, Thomas Gilby, resumiu a situação moral da humanidade moderna quando escreveu: “O homem não pode viver sem alegria. É por isso que alguém privado de alegria espiritual passa para os prazeres carnais.” (Peter Kreeft, Teologia Prática, Direção Espiritual de São Tomás de Aquinop. 188.)

A GRAVIDADE DOS PECADOS SEXUAIS

Quando iniciamos esta reflexão observamos que nossa sexualidade humana realiza seu objetivo maior no casamento cristão. Não devemos nos surpreender, então, ao saber que os pecados da luxúria aumentam em gravidade à medida que refletem cada vez menos a união sexual dos casais. A fornicação, ou as relações sexuais entre um homem e uma mulher não casados, podem duplicar a atividade sexual de marido e mulher, mas sua união não se destina a promover a vida comum do casal como parceiros no casamento. Além disso, embora os atos sexuais de parceiros não casados ​​possam produzir filhos, esses filhos serão privados dos benefícios que advêm de um casamento verdadeiro.

CONSEQUÊNCIAS DE IGNORAR O CASAMENTO

Podemos ficar surpresos ao saber que, quando ele considera a pecaminosidade da fornicação, São Tomás identifica a pena sofrida por filhos nascidos de pais solteiros como o mal primário ligado ao ato. Ele afirma: “… todo pecado cometido diretamente contra a vida humana é um pecado mortal”, e acrescenta

Ora, é evidente que a educação de um filho humano requer não apenas o cuidado da mãe para sua alimentação, mas muito mais o cuidado de um pai como guia e guardião... deve unir-se a uma determinada mulher... visto que a fornicação é uma união indeterminada dos sexos... ela se opõe ao bem da educação da criança.... (ST. II-II, 154.2)

ADULTÉRIO

São Tomás propõe uma razão semelhante para explicar a pecaminosidade do adultério. Além de seu óbvio afastamento da castidade, os adúlteros abandonam sua responsabilidade de promover o amor mútuo e gerar filhos em seus próprios casamentos, e também impedem que seus parceiros cumpram essa mesma responsabilidade.

SEDUÇÃO E INCESTO

Como vimos, as características particulares da luxúria podem ser distinguidas pelas diferentes condições dos indivíduos que abusam de sua sexualidade. A este respeito devemos considerar sedução, em que um homem seduz uma virgem a sacrificar sua pureza, e incesto, em que um casal, que são membros da mesma família, compartilham relações sexuais. O Quarto Mandamento nos admoesta a honrar nossos pais. São Tomás ensina que a honra devida aos pais também deve ser paga a “outros parentes de sangue que descendem em grau próximo dos mesmos pais”. (ST II-II, 154.9)

ESTUPRO

St. Thomas define estupro de forma restrita, dizendo que é “empregar força para violar ilegalmente uma virgem”. Nossas sensibilidades atuais expandem essa definição, e nossa Catecismo define estupro, simplesmente, como “a violação forçada da intimidade sexual de outra pessoa”. O texto continua: “O estupro fere profundamente o respeito, a liberdade e a integridade física e moral a que toda pessoa tem direito”. (CCC, nº 2356)

MASTURBAÇÃO

A masturbação é mais um exemplo do mau uso lascivo de nossa sexualidade. Isso não deve surpreender, pois a masturbação é claramente o uso de um indivíduo para seu próprio prazer um presente projetado para ser compartilhado com outro, dentro de um contexto específico e por uma razão específica.

ATOS HOMOSSEXUAIS

As relações homossexuais são um exemplo de sexualidade similarmente mal utilizada. o Catecismo ensina: “Eles fecham o ato sexual ao dom da vida. Não procedem de uma genuína complementaridade afetiva e sexual”. (CCC, nº 2357)

UM CUIDADO

Aqui devemos distinguir entre o ato e a pessoa que o realiza. Um ato homossexual, ou qualquer ato sexual não destinado a promover a vida familiar e a santidade do casamento, é desordenado. No entanto, nosso Catecismo observa

O número de homens e mulheres com tendências homossexuais arraigadas não é desprezível. Essa inclinação, objetivamente desordenada, constitui para a maioria deles uma provação. Eles devem ser aceitos com respeito, compaixão e sensibilidade. Todo sinal de discriminação injusta em relação a eles deve ser evitado. Essas pessoas são chamadas a cumprir a vontade de Deus em suas vidas e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar em sua condição. (CCC, nº 2358)

A BUSCA DA ALEGRIA: UM REMÉDIO PARA A LUXÚRIA

Anteriormente, citamos Thomas Gilby, que escreveu que nossa incapacidade de encontrar alegria espiritual pode levar à escolha do prazer físico. Tomás de Aquino define a alegria como a satisfação decorrente de realizar algum bom trabalho ou possuir alguma coisa boa. Isso sugere um aprofundamento de nossa vida espiritual como remédio para a luxúria. Os primeiros escritores da Igreja perceberam que não podemos derrotar o pecado apenas por nossa razão humana; devemos nos voltar para Deus. Kevin Vost, um escritor espiritual que mencionamos em reflexões anteriores, diz que o Sacramento da reconciliação é um primeiro passo importante em nossa batalha contra a luxúria e a busca pela alegria.

PASSOS DO CAMINHO

Se a luxúria continuar a provocar pensamentos prejudiciais, Vost nos exorta

…imediatamente [para] buscar a ajuda de Deus, talvez por uma oração que é muito rápida e poderosa, como a antiga Oração de Jesus que os Padres do Deserto tanto gostavam: “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim, um pecador.” Por meio disso, imediatamente clamamos pela ajuda de Cristo para expulsar o demônio da fornicação… [pois] Cristo pode expulsar todos os demônios e pecados…. ((Vost, Os Sete Pecados Capitais, p. 165)

OUTRO PASSO: UMA RÁPIDA ORAÇÃO A MARIA

A Ladainha da Santíssima Virgem dirige-se a Maria como “Virgem puríssima” e “Causa de nossa alegria”. Maria é o nosso modelo em todas as coisas e em todos os momentos da nossa vida. Dirigir-se a Maria por esses títulos, seguidos da petição “Rogai por nós”, nos identifica com Nossa Mãe Santíssima. Juntamente com o Rosário, essas breves orações semeiam sementes de devoção que nossa fé nos garante que produzirão a colheita da vida eterna.

Manter contato

Assine nosso boletim eletrônico para receber as novidades da Confraria