A Importância da Intimidade

Luz e Vida – Maio-Junho 2019, Vol 72, Nº 3 – Uma Publicação da Província Dominicana Ocidental

A Importância da Intimidade

Por Br. John Winkowitsch, OP

[Br. John Winkowitsch, OP nasceu e foi criado em Cut Bank, MT. Convertido à fé católica, fr. John foi batizado durante seu primeiro ano no Thomas Aquinas College em Santa Paula, CA. Depois de obter seu bacharelado em Artes Liberais, iniciou seus estudos de pós-graduação em filosofia na Universidade Católica da América em Washington, DC. Após a conclusão de um Ph.D. em 2016, ele se juntou prontamente à Província Dominicana Ocidental e viveu feliz para sempre.]

“O homem não pode viver sem amor. Ele permanece um ser que é incompreensível para si mesmo, sua vida não tem sentido, se o amor não lhe é revelado, se ele não encontra o amor, se não o experimenta e o faz seu, se não participa intimamente dele. .” (Redentor Hominis §10)

O que é intimidade?

O 40º aniversário de Redentor Hominis, a primeira encíclica do Papa São João Paulo Magno, foi celebrada em 4 de março de 2019. Quero começar esta reflexão sobre a natureza do amor e da intimidade com a citação acima, porque nos ajuda a ver não apenas a importância do amor, mas também fornece um guia sobre como crescer no amor para que possamos “participar intimamente dele”. Sem amor, estamos perdidos. Nesse vazio, a primeira experiência que nos atrai para a intimidade é a revelação do amor. Essa revelação é então encontrada, o que nos dá nossa primeira oportunidade de experimentar o amor. Devemos, no entanto, receber ativamente esse amor para torná-lo nosso, e então, uma vez que tenhamos nossa própria capacidade de amar, seremos capazes de retribuir o amor e, assim, participar da intimidade amorosa.

O processo de crescimento no amor, desde a primeira revelação até a participação íntima, é o trabalho de toda uma vida e a vocação última de todo ser humano. Se você é solteiro, religioso, casado ou na Ordem, sua vocação é amar e amar intimamente. Santa Catarina de Sena, a grande mística dominicana, expressou esta mesma verdade em seu Diálogo, ainda que com um toque de jardineiro: “Todos vocês são árvores de amor: vocês não podem viver sem amor porque eu os fiz para o amor”. Santa Catarina sabiamente reconhece que, como as árvores, crescemos no amor. Crescemos no amor com outras pessoas e com Deus. No entanto, a graça se baseia na natureza, então primeiro veremos como crescemos naturalmente em amor e intimidade com outras pessoas.

Intimidade com os outros: amizade

Gostaria de sugerir três maneiras práticas de crescer em intimidade com outras pessoas em sua vida. Seja você casado ou solteiro, padre ou freira, essas três atividades importantes são vitais para viver bem sua vocação e amar o próximo, como Jesus nos ensinou.

Primeiro, devemos gastar tempo nos comunicando com outras pessoas. No mundo de hoje, temos muitas maneiras de nos comunicar. Infelizmente, as mídias sociais, mensagens de texto e e-mail tendem a nos deixar vazios por dentro. Por que é isso? Acho que parte do problema é que estamos falhando em nos comunicar em todos os níveis não-verbais e, portanto, grande parte de nossa comunicação é emocional e espiritualmente vazia. Para crescer em intimidade em nossos relacionamentos com nossos entes queridos, não importa se somos celibatários ou casados, precisamos nos comunicar plenamente e fazer escolhas que nos dêem a oportunidade de fazê-lo. Convide os amigos para um jantar. Comece um clube do livro para discutir ideias com amigos ou um clube de redação para discutir histórias com amigos. Faça o esforço de sempre jantar em volta da mesa com os outros. Reserve um tempo para discutir o seu dia com as pessoas, como uma pausa para o almoço ou uma bebida depois do trabalho. Todas essas sugestões proporcionarão oportunidades de comunicação natural e completa para que possamos desenvolver uma intimidade satisfatória com os outros.

Em segundo lugar, devemos gastar tempo fazendo coisas com outras pessoas. Por mais contra-intuitivo que possa parecer, trabalhar lado a lado com alguém em um projeto ou tarefa comum os une de uma maneira que a simples comunicação não consegue. Há um vínculo de confiança que se desenvolve quando você trabalha com alguém na mesma tarefa, joga como companheiros de equipe em uma liga esportiva ou se ajuda em um projeto de reforma. Enquanto a comunicação leva a uma intimidade de ideias e sentimentos, fazer coisas com amigos leva a uma intimidade de vontades.

Terceiro, devemos gastar tempo apenas estando com outra pessoa para crescer em intimidade. Um sábio padre que conheço costumava dar o mesmo conselho aos casais que estavam tendo dificuldades no casamento: caminhem juntos diariamente. Claro, a conversa surgiria naturalmente, mas mesmo que nenhuma palavra fosse dita, o simples ato de estar juntos em uma caminhada aproximaria o casal. Se você pode sentar-se confortavelmente em silêncio com outra pessoa, isso é um sinal certo de intimidade no relacionamento.

Conexão: A Graça Baseia-se na Natureza

Uma das mais belas verdades encontradas na fé católica é que a graça se baseia na natureza. Assim, à medida que buscamos intimidade em nossos relacionamentos humanos naturais pelas três maneiras listadas acima, estamos crescendo em virtude natural e em nossa capacidade de receber a graça necessária para crescer em intimidade com nosso Senhor Jesus Cristo. Somos chamados a amar a Deus e ao próximo. Não podemos nos concentrar inteiramente em nosso relacionamento com Deus enquanto ignoramos nosso próximo e esperamos crescer mais perto de Cristo. Em vez disso, ao crescer em intimidade com nossos amigos, familiares e entes queridos em nossas vidas diárias, também estamos construindo um fundamento natural sobre o qual a graça da caridade sobrenatural pode ser construída. Mas o que exatamente é caridade?

Intimidade com o Senhor: Caridade

No próprio coração do Summa Theologiae, pergunta 256 das 512 perguntas que São Tomás de Aquino escreveu, ele pergunta: “O que é Caridade?” Neste exato ponto médio da obra teológica mais famosa do Doutor Angélico, ele explica que a virtude sobrenatural da caridade pela qual todos lutamos como cristãos pode ser entendida como uma amizade íntima com Deus. Felizmente, porque sabemos que a graça se baseia na natureza, também podemos identificar três maneiras de crescer em intimidade com o Senhor que refletem as três maneiras discutidas acima que nos permitem crescer em intimidade com outras pessoas.

Primeiro, assim como devemos gastar tempo nos comunicando com outras pessoas, também devemos gastar tempo orando ao Senhor se desejamos crescer em intimidade com Ele. No Pe. O clássico livro de Romano Guardini, A arte de orar, ele nos informa na introdução que “quem leva a sério a sua relação com Deus, logo vê que a oração não é apenas uma expressão da vida interior que prevalecerá por si mesma, mas também um serviço a ser realizado na fé e na obediência. Assim, deve ser desejado e praticado.” A verdadeira intimidade é fiel tanto nos bons quanto nos maus momentos. Se orássemos apenas quando sentisse vontade, nossa comunicação seria tão superficial quanto nossos sentimentos temporários. Em vez disso, devemos criar o hábito da oração, de modo que passemos tempo conversando com nosso Senhor não apenas quando as coisas estão ótimas (ou um desastre!), mas também durante os eventos normais, chatos e cotidianos de nossas vidas. A intimidade com nosso Senhor é encontrada na oração regular e consistente. Ele quer fazer parte do nosso dia a dia.

Segundo, assim como devemos gastar tempo fazendo coisas com outras pessoas, também devemos gastar tempo fazendo coisas com Deus, esforçando-nos para conformar nossa vontade à Dele. Enquanto a comunicação com os outros nos permite compartilhar nossos pensamentos e sentimentos com eles, fazer coisas com os outros nos permite compartilhar nossas vontades uns com os outros. É o mesmo em nosso relacionamento com Jesus. Um dos frutos de uma conversa regular e íntima com nosso Senhor em oração é a consciência de Sua vontade para nossas vidas. Claro, é importante lembrar que a comunicação é uma via de mão dupla, então devemos gastar tanto tempo ouvindo quanto falando em nossa oração com o Senhor. Se ouvirmos bem, reconheceremos Sua vontade, dando-nos assim oportunidades de fazer coisas com Ele.

Terceiro, assim como devemos simplesmente passar o tempo com outras pessoas, também devemos simplesmente passar o tempo com nosso Senhor Jesus em adoração ao Santíssimo Sacramento. Pe. Norris Clarke relata uma história adorável em seu artigo, “The Creative Imagination”. Ele pediu a um grupo de crianças do ensino fundamental que explicassem o que fazem quando oram. Uma menina respondeu: “Quando rezo, faço como uma flor diante de Deus”. Embora nem todos se identifiquem com essa imagem, ela é muito eficaz para expressar a importância de passar o tempo apenas na presença de Deus em adoração. A intimidade da adoração não é um conhecimento de pensamentos ou sentimentos, nem mesmo uma união de vontades, mas sim uma intimidade que atinge a própria essência de nós mesmos: nosso próprio ser.

Conclusão: Fomos Feitos para a Intimidade

A intimidade é fruto do crescimento da nossa vocação ao amor. A base desse processo é o amor de Deus por nós, do qual fomos criados. Como Jesus diz a Santa Catarina de Sena em seu Diálogo: “Eu te criei sem a tua ajuda, sem que nunca me pedisses, porque te amei antes mesmo de existires, mas não te salvarei sem a tua ajuda”. A “ajuda” aqui de que Jesus está falando é cooperar com Sua graça para fazer nosso o Seu amor. Uma vez que vemos que somos amados por Deus, podemos participar cada vez mais intimamente em nossos relacionamentos com outras pessoas e com o próprio Jesus. Como diz Santa Catarina sobre a alma humana: “ela ama cada pessoa com o mesmo amor com que se vê amada”. Uma vez que reconhecemos o amor que Jesus tem por nós, tanto ao nos criar quanto ao entregar sua vida em amor na cruz para nos salvar, podemos devolver esse amor aos outros.

No entanto, à medida que continuamos a “operar a nossa salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12), esforçando-nos para amar a Deus e ao próximo, devemos sempre lembrar de ter paciência, “a rainha que reina sobre todas as virtudes porque é o coração do amor” segundo Santa Catarina. Devemos ser pacientes conosco mesmos e com os outros após nossos muitos fracassos. Vivemos em um mundo caído onde todos estão aprendendo a crescer em amor e intimidade. Nossa paciência em suportar nossas próprias falhas e as falhas dos outros é um bom parâmetro pelo qual podemos medir o quanto crescemos em nossa vocação para amar intimamente. Como Jesus diz em Diálogo com Santa Catarina, “a paciência é um sinal seguro de que a alma me ama perfeitamente e sem interesse próprio”. Portanto, confiem no amor de Jesus, esforcem-se para amar intimamente e sejam sempre pacientes meus amigos!

Ele os pastoreou com um coração puro; com mãos hábeis os guiou.
(Salmo 78)

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