As Obras de Misericórdia: “Um Ano de Peregrinação”
Por Padre Reginald Martin, OP
AS OBRAS CORPORAIS DE MISERICÓRDIA
Ao encerrarmos nossa última reflexão, identificamos as obras de misericórdia corporais como alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, acolher os estranhos, vestir os nus, curar os doentes e visitar os presos. Alguns deles estão, sem dúvida, além de nossa capacidade, mas alguns serviços aos pobres e doentes fazem parte dos programas de extensão paroquial. Assim, embora não possamos considerar o efeito no momento, esses ministérios oferecem uma oportunidade de ministrar e oferecer misericórdia ao Cristo sofredor em nosso meio.
AS OBRAS ESPIRITUAIS DE MISERICÓRDIA
As obras de misericórdia espirituais são consideravelmente mais sutis, mas também aqui a Igreja nos lembra de nossa responsabilidade de encontrar Cristo naqueles que nos rodeiam. As obras espirituais de misericórdia são instruir os ignorantes, aconselhar os duvidosos, admoestar os pecadores, suportar as ofensas com paciência, perdoar as ofensas, confortar os aflitos e orar pelos vivos e pelos mortos.
ONDE? QUÃO?
Hoje em dia, instruir os ignorantes é uma tarefa que tem sido amplamente realizada pelo governo ou por instituições privadas, mas a instrução catequética oferecida nas paróquias oferece oportunidades para muitos compartilharem a riqueza de seus conhecimentos do ensino da Igreja. Mas as outras obras também nos reivindicam e exigem um sacrifício igual de nós mesmos. Conselho, conforto, paciência e perdão são precisamente as obras que Jesus assumiu em nossa carne para realizar entre nós. Quando nos aproximamos uns dos outros para realizá-los, testemunhamos a Encarnação. O Santo Padre é muito claro quando nos adverte
Não podemos escapar das palavras do Senhor para nós, e elas servirão de critério sobre o qual seremos julgados: se alimentamos o faminto e demos de beber ao sedento, acolhemos o estrangeiro e vestimos o nu, ou passamos tempo com o doente e os presos (cf. Mt 25-31). Além disso, nos perguntarão se ajudamos os outros a escapar da dúvida que os leva ao desespero e que muitas vezes é fonte de solidão; se ajudamos a superar a ignorância em que vivem milhões de pessoas, especialmente crianças privadas dos meios necessários para libertá-las das amarras. (Misericordiae Vultus, 15)
UM ECO DO FR. DUFFNER
Pe. Paul Duffner, que dirigiu o ministério do Rosary Center por muitos anos, repetiu essa advertência uma vez, quando pregou
O perdão é o único tipo de esmola que sempre podemos dar. É uma forma de caridade que pode ser exercida a qualquer momento por qualquer pessoa, seja ela rica ou pobre, jovem ou velha, doente ou saudável. Se não podemos administrar esse tipo de esmola, nossa pobreza é muito maior do que a falta de dinheiro, comida, roupas ou abrigo….
UM PEDIDO DE QUARESMA
O Papa Francisco se volta para o Tempo da Quaresma, que começará no momento em que os amigos do Rosary Center receberão este número de Luz e Vida, para nos exortar a refletir sobre o que Deus nos deu durante esses dias santos.
Quantas páginas da Sagrada Escritura são apropriadas para a meditação durante as semanas da Quaresma para nos ajudar a redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Podemos repetir as palavras do profeta Miquéias e torná-las nossas: Tu, ó Senhor, és um Deus que tiras a iniqüidade e perdoas o pecado, que não retém a tua ira para sempre, mas se compraz em mostrar misericórdia. Tu, Senhor, voltarás para nós e terás piedade do teu povo. Você vai pisotear nossos pecados e lançá-los nas profundezas do mar. (cf. 7:18-19) (MV, 17)
O CHAMADO AO ARREPENDIMENTO
E ele nos implora para “…colocar novamente no centro o Sacramento da Reconciliação, de modo que permita que as pessoas toquem com as próprias mãos a grandeza da misericórdia de Deus. Para cada penitente, será uma fonte de verdadeira paz interior”.
CONSOLO AOS PECADORES
Enquanto as palavras do Santo Padre aos penitentes são palavras de alegria, suas palavras aos sacerdotes são muito sérias: “Nunca esqueçamos que ser confessores significa participar da própria missão de Jesus para ser um sinal concreto da constância do amor divino que perdoa e salva”.
UMA ADVERTÊNCIA AOS SACERDOTES
O Papa Francisco pretende que essas palavras ofereçam um consolo especial às mulheres que buscaram o aborto e às que buscaram ganhos financeiros à custa da vida de outros, mas a seguinte advertência deve dar grande esperança a quem hesitou em buscar o Sacramento da Reconciliação por medo de uma recepção fria ou repreensão severa.
Nós, sacerdotes, recebemos o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados, e somos responsáveis por isso. Nenhum de nós exerce poder sobre este Sacramento; pelo contrário, somos servos fiéis da misericórdia de Deus por meio dela... Que os confessores não façam perguntas inúteis, mas, como o pai da parábola, interrompam o discurso preparado de antemão pelo filho pródigo, para que os confessores aprendam a aceitar o pedido de ajuda e misericórdia derramando do coração de cada penitente. Em suma, os confessores são chamados a ser sinal do primado da misericórdia sempre, em todos os lugares e em todas as situações, não importa o que aconteça.
MISERICÓRDIA E JUSTIÇA
No final de sua carta, o Papa Francisco se volta para o profeta Oséias, cujas palavras do Antigo Testamento são um lembrete pungente de que a justiça de Deus está intimamente ligada à sua misericórdia. Deus vê que seu povo traiu sua fé e, no entanto, ele clama: “Como posso desistir de você, ó Efraim! Como posso te entregar, ó Israel! …Meu coração recua dentro de mim, minha compaixão se torna quente e terna. Não executarei minha ira feroz... porque eu sou Deus, não homem... e não virei para destruir”.
AS EXIGÊNCIAS DA JUSTIÇA
O Santo Padre é rápido em apontar que a misericórdia e a ternura de Deus não são uma negação da justiça. Quem erra, tem que pagar a pena. A justiça é o início da conversão; leva o pecador à misericórdia de Deus. Justiça e misericórdia, escreve ele,
...não são duas realidades contraditórias, mas duas dimensões de uma única realidade que se desdobra progressivamente até culminar na plenitude do amor. A justiça é um conceito fundamental para a sociedade civil, que deve ser regida pelo Estado de Direito. (MV, 20)
JUSTIÇA: AOS OUTROS E A DEUS
No início de seu ministério público, Jesus prometeu a bem-aventurança a quem tem fome e sede de justiça, o que nossa teologia ensina é a vontade de dar a cada pessoa o que ela merece. Embora raramente pensemos nisso, talvez, a virtude da Justiça governe nossas relações com Deus, bem como nosso trato uns com os outros.
MISERICÓRDIA E JUSTIÇA NO CALVÁRIO
A maior parte do que levou à morte de Jesus foi claramente injusto, mas se não permitirmos que Jesus nos ensine uma lição de justiça no Calvário, permaneceremos cegos para como ele operou nossa salvação. A justiça exigia um tributo à honra de Deus, afrontado pelo pecado de nossos Primeiros Pais. Somente Cristo, um em natureza com Deus e conosco, era digno de oferecer o tributo aceitável a Deus em nosso favor. (ST, III.48:4) A paixão de Cristo é um sacrifício em justiça a Deus; é um sacrifício oferecido em misericórdia por nós.
O resultado do Éden foi uma dupla servidão, pela qual tínhamos uma dívida para com Deus, ao mesmo tempo em que nos encontrávamos sob o domínio do pecado. A morte de Cristo é o preço que cancela a dívida oferecendo a Deus algo de maior valor do que a ofensa. E porque foi empreendida livremente e com amor, a morte de Cristo nos liberta da escravidão ao egoísmo do pecado. (III.48:2, 3 ad 2)
A DISPENSA DE JESUS
Jesus, porém, vai além da lei. E o Papa Francisco observa, “… a companhia que ele mantém com aqueles que a lei considera pecadores nos faz perceber as profundezas de sua misericórdia.” (MV, 20) O altar da Missa nos une a todos aqueles que Jesus chamou e salvou, e o exemplo de alguns dos que estão na mesa celestial deve ser um lembrete poderoso de tudo o que Deus está disposto a fazer por nós.
UM ANO SANTO INDULGÊNCIA
Os Anos Santos tradicionalmente oferecem uma indulgência; este Ano da Misericórdia não é exceção. Mas antes de considerarmos a indulgência propriamente dita, devemos recordar o ensinamento da Igreja de que uma indulgência é a remissão da Igreja da pena temporal devida a um pecado já confessado e absolvido. (CCC, nº 1471) “Para ganhar uma indulgência”, O Papa Francisco escreve,
…é experimentar a santidade da Igreja, que dá a todos os frutos da redenção de Cristo, para que o amor e o perdão de Deus se estendam por toda parte. Vivamos intensamente este Jubileu, suplicando ao Pai que perdoe nossos pecados e nos banhe em sua misericordiosa "indulgência."
A BÊNÇÃO DE UMA INDULGÊNCIA
O Santo Padre destaca, “Deus está sempre pronto a perdoar e nunca se cansa de perdoar de maneiras continuamente novas e surpreendentes.” No entanto, ele acrescenta, embora Deus perdoe e apague nosso pecado no Sacramento da Reconciliação,
…ainda assim, o pecado deixa um efeito negativo na maneira como pensamos e agimos. Mas a misericórdia de Deus é ainda mais forte do que isso. Torna-se indulgência do Pai que, por meio da Esposa de Cristo, sua Igreja, chega ao pecador perdoado e o liberta de todo resíduo deixado pelas conseqüências do pecado, capacitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de voltar ao pecado. (MV, 22)
GANHANDO A INDULGÊNCIA DO ANO SANTO
Em setembro passado, o Papa Francisco especificou como os fiéis podem aproveitar a indulgência deste Ano Santo. A indulgência é tradicionalmente concedida a quem faz uma peregrinação a Roma e passa pela Porta Santa de São Pedro. No entanto, para tornar o dom acessível ao maior número possível de pessoas, o Papa convida as pessoas a visitar sua catedral diocesana ou outros lugares indicados como santuários do Ano Santo. E para que não esqueçamos que a indulgência é um ato de comunhão com o resto de nossa vida religiosa, o Santo Padre é claro ao comentar
É importante que este momento esteja ligado, em primeiro lugar, ao Sacramento da Reconciliação e à celebração da Eucaristia com uma reflexão sobre a misericórdia. Será necessário acompanhar estas celebrações com a profissão de fé e com a oração por mim e pelas intenções que trago no coração para o bem da Igreja e do mundo inteiro.
UMA INDULGÊNCIA PARA OS NECESSITADOS
Ao longo de seu pontificado, nosso Santo Padre demonstrou notável bondade para com os necessitados. Não devemos nos surpreender, então, que ele amplie os benefícios da Indulgência do Ano Santo àqueles que não podem fazer nem mesmo a peregrinação limitada a uma igreja local.
…Penso naqueles para quem, por vários motivos, será impossível entrar na Porta Santa, particularmente os doentes e pessoas idosas e sozinhas, muitas vezes confinadas em casa… recebendo a comunhão ou participando da Santa Missa e da oração comunitária, mesmo através dos vários meios de comunicação, será para eles o meio de obter a Indulgência Jubilar.
UMA INDULGÊNCIA PARA OS ESQUECIDOS
Mas sua preocupação não termina com aqueles cujas necessidades geralmente atendemos e oramos.
Meus pensamentos também se voltam para os encarcerados, cuja liberdade é limitada. O Ano do Jubileu sempre constituiu uma oportunidade para uma grande anistia, que se destina a incluir as muitas pessoas que, apesar de merecerem punição, tomaram consciência da injustiça que cometeram e desejam sinceramente reentrar na sociedade e dar a ela sua honesta contribuição… Podem obter a Indulgência nas capelas das prisões. Que o gesto de dirigir o pensamento e a oração ao Pai cada vez que cruzam o limiar de sua cela signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de Deus é capaz de transformar corações, e também é capaz de transformar grades em uma experiência de liberdade.
UMA INDULGÊNCIA PARA OS MORTOS
Finalmente, o Santo Padre nos lembra que podemos obter a Indulgência para nossos entes queridos que morreram.
Além disso, a indulgência jubilar também pode ser obtida para os defuntos... como os recordamos na celebração eucarística... podemos, no grande mistério da Comunhão dos Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de toda resquício de culpa e abraçá-los fortemente na bem-aventurança sem fim.
MARIA, NOSSA MÃE DE MISERICÓRDIA
O Papa Francisco encerra sua carta com palavras sobre Maria, a Mãe de Misericórdia. “Que a doçura de seu semblante,” ele reza, “cuida de nós neste Ano Santo, para que todos possamos redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém penetrou no mistério profundo da Encarnação como Maria”. (MV, 24)
A Encarnação, a encarnação de Cristo em nossa carne, é um chamado à humildade, mas a humildade bem compreendida – a virtude pela qual reconhecemos Deus como a fonte de tudo o que temos e de tudo o que somos. Isso está intimamente ligado à obediência, porque uma vez que percebemos quão totalmente dependentes somos da misericórdia de Deus, torna-se cada vez mais fácil entregar nossa vontade à vontade de Deus.
Maria, que é nosso modelo em todas as coisas, é nosso exemplo de humildade e obediência. Maria – como nós – pode ficar feliz, extasiada, quando fala de sua humildade como serva de Deus, porque abrir mão de nossa vontade para abraçar a vontade de Deus – significa ter o direito de participar dos triunfos e da glória de Deus.
A fraqueza de nossa humanidade reivindica a Divina Misericórdia. O Pai elevou nossa humanidade na Encarnação, e o Filho a sacrificou no Calvário. Se quisermos desfrutar da salvação que Cristo conquistou para nós, será porque nossos corpos se entregam a essa misericórdia, ao que entendemos com nosso intelecto e determinamos fazer em nossa vontade.
A MISERICÓRDIA, A EUCARISTIA E O ROSÁRIO
O Concílio Vaticano II chama os sacramentos, especialmente o sacramento da Eucaristia, “ação salvadora por excelência.” E se buscamos uma ferramenta que amplie os efeitos da Eucaristia e forme nossa humanidade segundo o exemplo de Cristo, não precisamos ir além do Rosário. O Papa São João Paulo II disse: “Ao mergulhar-nos nos mistérios da vida do Redentor, [o Rosário] garante que o que ele fez e o que a liturgia torna presente seja profundamente assimilado e molda nossa existência”. (Rosarium Virginis Mariae, 13)
O Papa Francisco oferece o lembrete muito encorajador de que no Magnificat de Maria, estamos incluídos entre os “geração em geração” daqueles abençoados pela misericórdia de Deus mostrada a ela. Estas palavras, diz o Santo Padre, “… cantado no limiar da casa de Elizabeth… será uma fonte de conforto e força para nós ao cruzarmos o limiar do Ano Santo…”
OLHAR PARA TRÁS, OLHAR PARA FRENTE
Na Visitação, Isabel saúda Maria perguntando: “Como é que a Mãe do meu Senhor deve vir a mim? “Essas palavras ecoam o título dado às mulheres proeminentes no Antigo Testamento, onde a mulher mais poderosa do reino não era a esposa do rei – um rei podia ter muitas esposas; Salomão, nos dizem, teve várias centenas – mas a mãe do rei. Maria representa tudo o que havia de melhor no Antigo Testamento, que sem dúvida Deus ergueu os humildes e expulsou os poderosos de seus tronos. E Maria fala sempre pela Igreja, que olha a história através das lentes da morte e ressurreição de Cristo, vendo em toda parte os sinais infalíveis da misericórdia de Deus para com aqueles que o temem. Essa misericórdia foi manifestada mais claramente no Calvário, onde Maria nos convida a nos unirmos a ela ainda hoje, enquanto nos reunimos para a celebração eucarística do amor eterno e misericordioso de seu Filho.