As Obras da Misericórdia: “Ano da Misericórdia”
Por Padre Reginald Martin, OP
UM ANO DE JUBILEU
Em 15 de abril deste ano, o Papa Francisco anunciou uma Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Ano Santo que se iniciará na Solenidade da Imaculada Conceição, 8 de dezembro de 2015, e terminará na Solenidade de Cristo Rei, 20 de novembro de 2016. O ano comemorará o 50º aniversário do encerramento da Segunda Concílio Vaticano em 1965 e, como título do documento de introdução do Ano Jubilar – Misericordiae Vultus – O Rosto da Misericórdia – sugere, este é um momento, nas palavras do Santo Padre, para a Igreja olhar para dentro e alcançar.
Confiaremos a vida da Igreja, toda a humanidade e todo o cosmos ao senhorio de Cristo, pedindo-lhe que derrame sobre nós a sua misericórdia como o orvalho da manhã, para que todos trabalhem juntos para construir um futuro melhor. Como desejo que o próximo ano seja repleto de misericórdia, para que possamos ir ao encontro de cada homem e mulher, levando a bondade e a ternura de Deus! Que o bálsamo da misericórdia chegue a todos, crentes e distantes, como sinal de que o Reino de Deus já está presente em nosso meio! (Misericordiae Vultus 5)
MISERICÓRDIA: UMA DEFINIÇÃO
Antes de continuarmos nossa consideração da reflexão do Papa Francisco, podemos fazer bem em considerar uma definição de Misericórdia. Nossa teologia ensina que é compaixão pelo sofrimento do outro, juntamente com uma vontade ativa de aliviá-lo. A virtude tem dois elementos; cada um é extremamente importante e ambos devem estar unidos se quisermos reconhecer um ato como misericordioso.
O primeiro componente imediato da misericórdia é um sentimento de tristeza pela dificuldade do outro. Esta é a parte fácil da misericórdia – fácil porque nossos corações são naturalmente movidos pela situação de muitos dos indivíduos que vemos ao nosso redor. O segundo elemento da definição é consideravelmente mais desafiador. Não estamos sendo misericordiosos quando choramos no cinema; para ser misericordioso, nossa tristeza deve ser acompanhada de algum passo prático para aliviar a angústia que testemunhamos.
MISERICÓRDIA NO ANTIGO TESTAMENTO
A carta do Santo Padre convida-nos a ver este amor misericordioso ilustrado na paciência de Deus com o seu povo no Antigo Testamento.
“O Senhor levanta os oprimidos, lança os ímpios por terra”. (Sal. 147) Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta com a qual ele revela seu amor como o de um pai ou de uma mãe, movidos até as profundezas por amor ao filho. Não é exagero dizer que este é um amor “visceral”. Ele jorra das profundezas naturalmente, cheio de ternura e compaixão, indulgência e misericórdia. (MV 6)
MISERICÓRDIA NO EVANGELHO
A vida e a obra de Jesus são sinais de misericórdia ainda mais visíveis. Quando a multidão o segue para um lugar deserto, ele não apenas se compadece deles, mas os alimenta. Quando ele encontra o cortejo fúnebre e uma mãe em luto, ele restaura seu filho à vida.
Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que nunca desiste até que tenha perdoado o erro e superado a rejeição com compaixão e misericórdia... ele perdoa. Neles encontramos o cerne do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia se apresenta como uma força que tudo vence, enchendo o coração de amor e trazendo consolo através do perdão. (MV 9)
UM DESAFIO PARA NÓS
Quando ele considera outra parábola, o Papa Francisco conclui: “…a misericórdia não é apenas uma ação do Pai, torna-se um critério para determinar quem são seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a mostrar misericórdia porque a misericórdia nos foi mostrada primeiro”. Viver o exemplo de nosso amoroso criador está no centro das palavras de Jesus, “Sede misericordiosos, assim como vosso Pai é misericordioso”, (Lc 6:27) e o Papa Francisco escolheu a frase, “Misericordioso como o Pai” como “lema” para este Ano Santo. (MV 14)
Quando consideramos a misericórdia de Deus, em nenhum lugar ela é mais evidente do que na Encarnação de Seu Filho. Quando esquecemos o que significava ser filhos de Deus, Deus enviou Seu Filho entre nós, um filho, para passar por todos os momentos de nossas vidas – não para que não tivéssemos que fazer isso, mas para nos mostrar como acertar. E em nenhum lugar a misericórdia de Jesus é mais evidente do que ao recolher nossos pecados e oferecer sua vida em troca deles.
A Sexta-feira Santa e o Calvário ilustram a completa falência da nossa natureza humana. Mas eles também nos mostram a imensa misericórdia de Jesus. E para que nunca fiquemos sem a consolação e a força da Cruz, Jesus deixou-nos o dom da Missa, que nos permite tocar a Cruz e o seu galardão todos os dias. Quando comemos este pão e bebemos este cálice abrimos uma janela para a eternidade e estamos aos pés da cruz, onde Cristo nos atrai para si e nos ordena a transformar o mundo.
E se isso não bastasse, na Eucaristia, Jesus também nos dá uns aos outros. A misericórdia nos lança nos braços uns dos outros; vemos isso muito claramente na Eucaristia. Em todas as outras refeições, o que comemos se torna nós, mas na Missa somos transformados no que comemos e nos tornamos o que celebramos. Por uma instituição divina, nossas ações mortais são carregadas de valor imortal. “Assim como eu fiz, você também deve fazer... em memória de mim.” Estas palavras são um comando – para agir. Ser para o mundo o que Cristo, ao participar de nossa mortalidade e na cruz, foi para nós.
O imperativo nas palavras de Cristo é muito importante, assim como o objeto que Cristo nos manda servir em sua memória. O memorial que nos leva ao altar proíbe-nos de esquecer a dimensão social da nossa fé, porque a Eucaristia não é apenas o foco do nosso culto; é a base da nossa moralidade. Há uma ou duas décadas, um arcebispo americano refletiu sobre a relação da vida moral com as leis morais. Ele disse
A primeira questão do discipulado cristão... não é O que sou obrigado a fazer ou evitar? A primeira pergunta da vida moral é: O que significa para mim estar em Cristo Jesus? Qual é a afirmação de ser uma nova criação em Cristo no modo como vivo?
OS EFEITOS DA MISERICÓRDIA
A Cruz nos atrai ao altar, mas quando nos reunimos lá, fazemos mais do que professar nossa fé em um evento; também professamos nossa fé em um resultado. Somos o que comemos e nos tornamos o que acreditamos – uns pelos outros e pela ação misericordiosa de Cristo na cruz, para a salvação do mundo.
O sacrifício de Cristo é uma reflexão sobre o valor de nossa natureza humana e um desafio tanto para abraçá-la quanto para trabalhar por sua restauração. A humanidade está no centro de tudo em que acreditamos. A fraqueza de nossa humanidade exigia que Deus a elevasse na Encarnação e a sacrificasse no Calvário. E se quisermos desfrutar da salvação que Cristo conquistou para nós, será porque nossos corpos se entregam ao que entendemos com nosso intelecto e determinamos fazer em nossa vontade. A carta do Papa Francisco nos pede para dar como Deus deu, “…sempre, livremente, sem pedir nada em troca… Ele vem nos ajudar em nossa fraqueza… Dia após dia, tocados por sua compaixão, também podemos nos tornar compassivos para com os outros.” (MV, 14)
OBRAS DE MISERICÓRDIA, EM BREVE
Consideraremos as obras de misericórdia individuais com maior profundidade à medida que essas reflexões progridem. Por enquanto, podemos, como faz o Santo Padre, trazê-los à mente. As obras de misericórdia corporais (corporais) são alimentar os famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os estrangeiros, curar os doentes, visitar os presos e enterrar os mortos. As obras espirituais são aconselhar os duvidosos, instruir os ignorantes, admoestar os pecadores, confortar os aflitos, perdoar os que nos ofenderam, suportar as doenças com paciência e orar pelos vivos e pelos mortos.
Se considerarmos essas ações, mesmo que casualmente, percebemos que elas são – algumas delas, pelo menos – os critérios dos quais nossa vida eterna depende. Quando São Mateus retrata o fim do mundo, ele retrata Deus como um Rei Todo-Poderoso, dispensando vida eterna àqueles que o serviram quando o encontraram em necessidade e condenação àqueles que o ignoraram. Ambos perguntam quando o encontraram ou não, “E o rei lhes responderá: 'Em verdade vos digo que, quando o fizestes [ou não o fizestes] a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes'.” (Mt. 23: 40)
AO ALCANCE DE TODOS
Algumas das obras de misericórdia podem não estar ao nosso alcance. Poucos de nós, por exemplo, têm a oportunidade de visitar quem está na prisão. Mas cada um de nós pode perdoar aqueles que nos ofenderam. Isso não precisa ser um ato público; pode acontecer em um momento de oração particular. Podemos nos lembrar de alguém que nos fez mal e então nos imaginar como Jesus diante de Pilatos e orar pela pessoa que nos prejudicou.
Se olharmos para Jesus e para o destino que se abateu sobre ele quando deixou o escritório de Pilatos, percebemos que a misericórdia é algo frágil em comparação com a ambição, o ódio e a inveja que movem muito do que vemos em nosso mundo. A misericórdia não segue essas regras, e o reino de Deus não é um lugar. É um sacrifício, oferecido no altar de nossos corações.
MISERICÓRDIA E RECONCILIAÇÃO
O Papa Francisco pede que façamos o sacrifício de nós mesmos buscando o Sacramento da Reconciliação durante o Ano da Misericórdia. Ele chama os sacerdotes para
... aceita o fiel como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho apesar de ter desperdiçado a sua herança. As confessoras são chamadas a abraçar o filho arrependido que volta para casa e expressar a alegria de tê-lo de volta. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho que está do lado de fora, incapaz de se alegrar... Que os confessores não façam perguntas inúteis, mas, como o pai da parábola, interrompam o discurso preparado de antemão pelo filho pródigo, para que os confessores aprenderão a aceitar o pedido de ajuda e misericórdia que brota do coração de cada penitente. Em suma, os confessores são chamados a ser sinal do primado da misericórdia sempre, em todos os lugares e em todas as situações, sejam quais forem. (MV, 17)
O REMÉDIO DA MISERICÓRDIA
O Santo Padre faz um apelo, como fez em cartas anteriores, para que se mostre misericórdia àqueles que são vítimas de injustiças e crimes cometidos para ganho financeiro. “Esta ferida purulenta é um pecado grave que clama aos céus por vingança, porque ameaça os próprios fundamentos da vida pessoal e social”. (MV, 18) Suas palavras são um lembrete de que Jesus, que era rico, se fez pobre por nossa causa e sentiu imensa tristeza pelo jovem que se recusou a segui-lo “…porque ele tinha grandes posses.” (Mt. 19: 22)
POBREZA E MISERICÓRDIA
Geza Grosschmid, escritor da primeira metade do século passado, oferece um remédio para esses males. Quando ele reflete sobre a riqueza, ele soa como um dos profetas do Antigo Testamento.
A riqueza, eliminando a necessidade de trabalhar para viver, oferece lazer que, muitas vezes, é desperdiçado e desperdiçado em diversões, intrigas, distrações que têm muito pouca conformidade com a moral. Permite comprar tudo o que a fantasia ou a ambição desejarem: coisas e pessoas, corpos e almas... Enfim, a avareza estéril, um prazer seco, isolado e antinatural, mata o coração, extingue o espírito, despreza o universo e o suprime quando não pode oferecer qualquer ganho possível à sua cobiça devoradora.
No entanto, nosso autor é rápido em apontar que a pobreza material não é o remédio para esses males. Muitos que são pobres, sem dúvida, desejam ter o capital para desfrutar de todos os prazeres ociosos e atividades autodestrutivas que põem em risco as almas de seus vizinhos ricos. Tanta pobreza, aponta ele,
… causa indignação, mas muitas vezes apenas com o propósito de insinuar [na mente dos pobres] o ácido corrosivo da inveja e do ciúme – como se os gozos dos prazeres deste mundo fossem, sozinhos, levar os pobres à felicidade.
Não é preciso receber assistência pública para entender quão pouco mérito é encontrado na pobreza material demonstrável. O que coloca a virtude na pobreza é ser voluntária. Grosschmid resume isso muito bem quando observa, “É a intenção que dá valor a um ato. É o espírito que faz a estação na vida e a transforma”.
Podemos não ligar imediatamente um espírito de pobreza voluntária com misericórdia, mas a virtude é sempre o meio termo entre os extremos. O desafio da pobreza é permitir que ela nos conduza por um caminho de simplicidade que resultará em cuidarmos menos de nós mesmos para que tenhamos tempo para cuidar dos outros.
MARIA, MÃE DE MISERICÓRDIA
Nossa reflexão sobre os demais parágrafos da carta do Santo Padre deve esperar até o próximo número de Luz e vida, e seria difícil imaginar uma introdução mais feliz ao Ano Novo do que uma peregrinação contínua através das palavras do Pontífice para inaugurar o Ano Jubilar de 2016. Mas, enquanto isso, olhemos para o final da carta do Papa Francisco e suas palavras sobre Maria, a Mãe de Misericórdia. “Que a doçura de seu semblante,” ele reza, “cuida de nós neste Ano Santo, para que todos possamos redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém penetrou no mistério profundo da Encarnação como Maria”. (MV, 24)
A Encarnação, a encarnação de Cristo em nossa carne, é um chamado à humildade, mas a humildade bem compreendida – a virtude pela qual reconhecemos Deus como a fonte de tudo o que temos e de tudo o que somos. Isso está intimamente ligado à obediência, porque uma vez que percebemos quão totalmente dependentes somos da misericórdia de Deus, torna-se cada vez mais fácil entregar nossa vontade à vontade de Deus.
Maria, que é nosso modelo em todas as coisas, é nosso exemplo de humildade e obediência. Maria – como nós – pode ficar feliz, extasiada, quando fala de sua humildade como serva de Deus, porque abrir mão de nossa vontade para abraçar a vontade de Deus – significa ter o direito de participar dos triunfos e da glória de Deus.
A fraqueza de nossa humanidade reivindica a Divina Misericórdia. O Pai elevou nossa humanidade na Encarnação, e o Filho a sacrificou no Calvário. Se quisermos desfrutar da salvação que Cristo conquistou para nós, será porque nossos corpos se entregam a essa misericórdia, ao que entendemos com nosso intelecto e determinamos fazer em nossa vontade.
O Concílio Vaticano II chama os sacramentos, especialmente o sacramento da Eucaristia, “ação salvadora por excelência.” E se buscamos uma ferramenta que amplie os efeitos da Eucaristia e forme nossa humanidade segundo o exemplo de Cristo, não precisamos ir além do Rosário. O Papa São João Paulo II disse: “Ao mergulhar-nos nos mistérios da vida do Redentor, [o Rosário] garante que o que ele fez e o que a liturgia torna presente seja profundamente assimilado e molda nossa existência”.