O que diria a Santíssima Virgem sobre fazer a vontade de Deus?
Luz e Vida – Nov-Dez 2018, Vol 71, No 6 – Uma Publicação da Província Dominicana Ocidental

O que diria a Santíssima Virgem sobre
fazendo a vontade de Deus?
pelo Pe. Reginald Martin, OP
Em Caná, Maria diz aos servos que “façam tudo o que ele lhes disser”, e eles enchem os jarros de água até a borda. O evangelho é uma história contada sobre nós, então Maria não está apenas falando com os assalariados em uma recepção de casamento; ela está falando conosco. Quando nosso Santo Padre visitou a Irlanda em 1979, ele orou a Maria: “Queremos fazer o que seu Filho nos diz… realizar e cumprir tudo o que vem dele… como nossos antepassados fizeram por muitos séculos…”. Assim, o que Maria pode nos dizer primeiro sobre seguir a vontade de Deus é abraçá-la, sem considerar o custo – ou as consequências.
E se abraçar a vontade de Deus leva ao sofrimento? Nossa fé nos diz que Jesus assumiu nossa carne e passou por todos os momentos de nossa vida. Não para que não tivéssemos que fazê-lo, mas para nos mostrar como e como “acertar”. Na Encarnação, a Palavra de Deus veio a se parecer conosco, o que significa que nos parecemos com Ele. Todas as nossas imagens de Maria nos apresentam um belo retrato, mas ela seria a primeira a nos lembrar: “A beleza não é simplesmente como a beleza; A beleza é apenas como a beleza é.” Se nos parecemos com Jesus, devemos agir como Ele, mesmo que – talvez especialmente se – isso signifique seguir Seu exemplo de sofrimento. Em Seus momentos de maior sofrimento, no Jardim do Getsêmani e na cruz, Nosso Salvador se ligou mais intimamente a nós. As palavras de Mary para “Faça o que ele mandar” são mais do que uma instrução que salvará um anfitrião do constrangimento de não fornecer adequadamente o refresco de seus convidados. Essas palavras são uma ordem para imitar Nosso Salvador, abraçando o sofrimento que Ele suportou para nossa salvação.
Nossa Mãe Santíssima não era estranha a este sofrimento. Quando ela disse: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1). Maria reconheceu a sua vontade de se entregar – de desistir – à vontade de Deus. Quando consideramos a resposta de Maria ao anjo, provavelmente pensamos na alegria que ela experimentou quando visitou sua parente, Isabel, e depois deu à luz Nosso Salvador. No entanto, as consequências adicionais de sua rendição levaram-nos a chamá-la de “Nossa Senhora das Dores”. Esses eventos dolorosos incluem a fuga para o Egito, o encontro com Jesus no caminho do Calvário e o testemunho de Sua morte e sepultamento. Podemos, pelo menos ocasionalmente, considerar sofrer uma punição pelo pecado. Mas se Maria sofreu, ela que não tinha pecado desde o primeiro momento de sua existência, devemos adotar uma visão diferente do sofrimento.
As palavras de Maria na Anunciação mostram que nada em nossa vida espiritual é feito automática ou mecanicamente, sem participação pessoal. Não somos meros instrumentos nas mãos de Deus, e a graça nunca nos priva de nossa liberdade. No entanto, Deus também é livre, e Ele pode se retirar de nós – mesmo que momentaneamente – e nos permitir sofrer, para que possamos perceber quão infinitamente profundo é o abismo de nossa enfermidade humana. O valor desse abandono é inquestionavelmente difícil de reconhecer na época, mas é um sinal de consideração e confiança de Deus, e evidência de que Ele pretende trazer algo da experiência, algo muito maior do que a dor que sofremos.
Se perguntássemos, o que Maria poderia dizer sobre os momentos de sofrimento que ocasionalmente acontecem a cada um de nós? Sem dúvida, ela começaria sua reflexão lembrando-nos que o sofrimento nos convida a nos entregar à misericórdia de Deus, mesmo que possamos discernir pouca ou nenhuma evidência dessa misericórdia. Ela nos lembra que nossos momentos de sofrimento não devem ser momentos de desespero, mas sim de revelação, pois quando nos deparamos com nossa fraqueza aprendemos a abraçar a verdadeira Humildade que é o remédio para o orgulho e a presunção. Maria nos assegurará que onde quer que encontremos o Getsêmani ou a Cruz, nos encontraremos. Deus já conhece nossas disposições internas, então o sofrimento não ensina nada a Deus, mas nos ensina muito sobre nós mesmos.
Se pedíssemos a Nossa Santíssima Mãe para continuar, ela poderia nos dizer que Deus nos permite sofrer para nos lembrar de nossa fraqueza. Santo Tomás de Aquino ensina que, se não tivéssemos corpos, seríamos confrontados com a mesma escolha que os anjos no momento da criação – conscientes de quão magníficas são nossas mentes, e quão maravilhosa seria nossa existência se estivéssemos sujeitos a ninguém além de nós mesmos. O sofrimento é um lembrete do quanto precisamos da misericórdia e do amor de Deus. Maria também pode sugerir que Deus permite que soframos para nos fortalecer. A experiência ensina que estamos aptos a nos estender fisicamente apenas até onde devemos. No século passado, dois teólogos dominicanos observaram: “O mesmo… provavelmente acontecerá na alma quando nenhuma exigência for feita a ela…”.
Maria nos diz: “Faze o que ele te disser”; se levarmos a sério suas palavras, nos encontraremos na cruz. Com ela, que foi a primeira a levar essas palavras a sério.
Ele suscitou para nós um poderoso salvador, nascido da casa de seu servo Davi. Lucas 1:69
Uma Nota do Pe. José, OP
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